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HOJE EU TÔ FELIZ, MATEI O PRESIDENTE! DE NOVO.

  • Foto do escritor: Geraldo Freire
    Geraldo Freire
  • 18 de mar. de 2020
  • 6 min de leitura

Atualizado: 21 de mar. de 2020

Semana passada, por acaso, me peguei ouvindo o 1º disco (CD) do Gabriel o Pensador, álbum homônimo, de 1993, em especial a música “Tô Feliz (Matei o Presidente)” e, claro, naveguei nas lembranças e na nostalgia. Esta música foi lançada no dia 05 de setembro de 1992, numa rádio do Rio de Janeiro, e, devido ao seu estrondoso sucesso de pedidas, foi censurada cinco dias depois a pedido do então ministro da justiça do governo Collor, Célio Borja, alegando que a música incentivava o assassinato do presidente, que àquela altura já amargava o início do processo de seu impeachment. Um Ministro da Justiça que pede censura artística para defender o seu presidente, isso lembra alguma coisa? O disco, inclusive de bastante sucesso de vendas e execuções nas rádios e nas TV's, só veio a ser lançado em meado de 1993 e continha a música que havia sido censurada em 92. Àquela altura o presidente já não estava mais no poder e “Tô Feliz (Matei o Presidente)” quase virou um hino da sua derrocada. Gabriel o Pensador sofreu censura do governo, que se colocava como liberal e de direita, mas, pouco tempo depois, em seu 2° disco (CD) também sofreu reprimendas da esquerda, pela música “Estudo Errado”. No Brasil as ideologias e partidos costumam eleger intelectuais, gurus e artistas para chamarem de seus, mas quem se considera um crítico de verdade não pode estar preocupado em agradar partidos, classes e ideologias (leiam meu artigo “Crítica e Neutrox").

A história se repete? Metafisicamente sabemos que não, mas metaforicamente sabemos que sim. Como assim? Ora, o passado é justamente aquilo que passou, não pode se estender ao presente e ao futuro, se não nunca será passado, e sim um eterno presente, como diria Santo Agostinho. Porém, as pessoas, individualmente, e as sociedades, tendem a se repetir, e muito. Intencionalmente ou não, conscientemente ou não, de forma necessária ou não. A Antropologia, a Sociologia e a Psicologia compreendem que existem padrões de repetições, e trabalham, principalmente, a partir de tais padrões. Padrões de comportamentos, padrões de linguagens, padrões intersubjetivos, padrões sociais, padrões de grupos (identificatórios), padrões de classes etc. Vários padrões convivem juntos, ao menos por um tempo. Há padrões bastante antigos e bem sedimentados, mas que não impedem que outros padrões surjam constantemente, ainda que os antigos sempre se insurjam aos novos. Há padrões que se repetem travestidos de novidades, mas são apenas roupas novas e vistosas em corpos velhos e corrompidos (algumas vezes até apodrecidos). Mas os padrões sucumbem, morrem com as pessoas.

No ano retrasado (2018), justamente no período da campanha presidencial, senti um cheiro de repetições de padrões no ar. Repetição de crises, repetição de discursos, repetição de esperanças, de promessas, e, porque não dizer, repetição de ódios, rancores e estupidez. Senti um cheiro de 1989 novamente. Aquele cara que chega na campanha presidencial, de paraquedas, se dizendo a novidade, a solução, a esperança, quando na verdade sempre representou o que há de mais arcaico e atrofiado na política e fora dela. Em 1989 a grande maioria do povo brasileiro foi às urnas para afastar de vez o fantasma da ditadura, afinal era a primeira eleição direta em 25 anos; em 2018, ironicamente, pasmem, o candidato que venceu a eleição sempre se mostrou, aberta e declaradamente, um grande admirador de ditaduras e seus métodos. Igual à eleição de 1989 a eleição de 2018 teve um caráter disrupitivo, ou deveria ter tido, e no primeiro exemplo, dois anos depois, a maioria dos brasileiros não suportou ver um governo que repetia padrões. O governo Collor começou mal e “terminou” ainda pior. Este governo começou pessimamente mal... Collor foi bastante popular no início do seu governo e só se deu conta de que a coisa estava degringolando para o seu lado justamente quando convocou a população para uma manifestação a seu favor no 7 de setembro (de 92): o povo se manifestou exatamente contra. O congresso fisgou a deixa, e Collor caiu três meses depois. Recentemente o presidente também convocou manifestações a favor dele... O que pensar? O que dizer? Em 1989 o termo “democracia” era deveras novo no jargão popular brasileiro, mas bastante almejado; em 2018 já parecia um conceito, e uma experiência, desgastados. Será que a nossa democracia falhou, ou fomos nós, em nossa educação e em nosso exercício da liberdade? (leiam o meu artigo “A Solução é Simples: não tolere o intolerante”).

Em fevereiro deste ano organizadores de um festival punk em Belém do Pará, denominado “Facada Fest”, foram intimados pela Polícia Federal a prestarem depoimento após cartazes do evento terem sido denunciados como apologéticos à violência. O Ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, endossou, em rede social, a hipótese de que os cartazes ofendiam a “honra” do presidente. Mesmo em tempos de internet, os cartazes, e o festival em si, praticamente só possuíam projeção local, depois do incidente passou a ter projeção nacional, se não internacional. E aí, após ver o cartaz alguém ficou com vontade de matar o presidente? Se ficou é porque já tinha, seja lá qual for o motivo. O problema das censuras, em geral, é que elas nunca são eficazes, em vez de coibirem acabam por estimular ainda mais o interesse pela coisa censurada. A fala é essencialmente simbólica, algumas imagens são particularmente simbólicas, e as atuações são também, e acima de tudo, simbólicas. Afinal, ter como slogan de campanha fazer arminhas com as mãos significa o que? “Vamos fuzilar a petralhada”, segurando um pedestal de microfone como se fosse uma metralhadora, denota o que? Era uma fala real, uma ameaça, ou era uma fala simbólica, alegórica? Se era uma fala real por que ninguém se quer foi denunciado, censurado ou preso? Recentemente (11/12/19) o Ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro novamente, recebeu de presente do artista plástico Rodrigo Camacho um painel formado por cartuchos de balas no formato do seu rosto e com os dizeres “Lava Jato”. E aí, como devemos interpretar a obra? Balas... Armas... Violência... Dor... Mortes... Tragédia... O que é crime para os outros para nossa turma é direito, virtude e arte?

Numa democracia de fato você é tão livre para expressar o seu amor ao presidente quanto para expressar o seu ódio. Numa democracia amadurecida você é tão livre para dizer que gostaria de fazer amor com o presidente tanto quanto para dizer que tem vontade de matá-lo. As duas alternativas são simbólicas, não se trata de ameaças. Não se faz ameaças com uma música executada pelas rádios e pelas TV's, ou, hoje, pela internet, se faz ameaça com um telefonema, uma carta anônima, um email anônimo, uma mensagem de um perfil falso. A ameaça é sempre velada, a arte não. Só um picareta vê ameaça real onde há metáfora, representação. Só um vigarista quer nos convencer que onde há, de fato, uma ameaça real, na verdade seja uma alegoria, um sentido figurado.

Por coincidência, esta semana também li uma matéria que relembrava os 30 anos do saque das cadernetas de poupança no governo Collor (16 de março de 1990). À época a medida gerou desesperos de famílias, infartos, falências e suicídios na população brasileira, e nenhuma melhoria na economia. Os mais novos deveriam ler matérias e ver vídeos sobre isto, são antídotos ante maus padrões. Tal medida era legal, constitucional? O que o Supremo Tribunal Federal poderia ter feito na época? Tivemos recentemente uma “reforma da previdência”, e, além disso, pessoas ligadas ao governo falam, constantemente, em golpe de estado. Até agora ninguém infartou, suicidou-se ou foi à falência por estes motivos (mas não estão livres), mas o que o Supremo e outras entidades de Estado podem fazer agora vendo a democracia brasileira se deteriorando? Assistirão sentados os padrões se repetirem? Uma ditadura e uma Era Collor é tudo o que os brasileiros menos precisam agora.

Numa época em que gerações reproduzem e reverenciam uma “cultura da polêmica” e da "lacração", polêmica de rede social, polêmica de comentários de meia dúzia de desocupados, alguns deveriam mergulhar um pouco no passado recente, anos 80 e 90, e verem o que era polêmica e "lacração" de verdade, quem sabe até aprender um pouco com a coragem daqueles que ousaram se expressar livremente: “Todo mundo bateu palma quando o corpo caiu / Eu acabava de matar o Presidente do Brasil / Fácil um tiro só / Bem no olho do safado / Que morreu ali mesmo / Todo ensanguentado / Quê? Saí voado com a polícia atrás de mim / E enquanto eu fugia eu pensava bem assim: ‘Tinha que ter tirado uma foto na hora em que o sangue espirrou / Pra mostrar pros meus filhos / Que lindo, pô’’”. Que tal? E essa? “O álcool mata bancado pelo código penal / Onde quem fuma maconha é que é o marginal / E por que não legalizar? E por que não legalizar? / Estão ganhando dinheiro e vendo o povo se matar / Legalize já, legalize já / Porque uma erva natural não pode te prejudicar”. E mais essa? “Foi num puteiro em João Pessoa / Descobri que a vida é boa / Foi minha primeira vez”. Repitamos os bons padrões sociais e individuais, em especial os padrões democráticos.

Ah, e antes que alguém invente “polêmica”, não estou estimulando o assassinato de qualquer pessoa que seja, muito menos do presidente, apenas estimulando as liberdades, em especial a de expressão. Como disse Renato Russo: "Disciplina é liberdade / Compaixão é fortaleza / Ter bondade é ter coragem".

“Tô Feliz (Matei o Presidente)” - Letra

"Legalize Já" (Planet Hemp) - Música

"Legalize Já" (Planet Hemp) - Letra

“Puteiro em João Pessoa” (Raimundos) - Música

“Puteiro em João Pessoa” (Raimundos) - Letra

"Há tempos" (Legião Urbana) - Música

"Há tempos" (Legião Urbana) - Letra

 
 
 

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