CRÍTICA E NEUTROX
- Geraldo Freire
- 16 de fev. de 2020
- 2 min de leitura
Existe sempre um grande risco em não se tomar partido em certas discussões, da mesma forma que corre-se um grande risco não ter partido. E partido aqui não se resume a apenas a partidos políticos, está mais para o entendimento de “tomar parte de”. Neste sentido, time de futebol é um partido, religião é um partido, e, as vezes, até uma teoria científica é um partido. Ser neutro, as vezes, significa apenas ser livre para criticar todos os lados e partidos, principalmente quando aqueles merecem. Mas se em tempos "normais" isso já é mal compreendido, imagina em tempos de polarização total. Tempos de “ou é isso ou é aquilo”. Tempos de “abrace

uma causa”. Tempos de (perdoem-me o clichê) “ou nós ou eles”.
Pior que ser odiado por um partido é ser odiado pelos dois, e, quem sabe, por todos. Porque nenhum partido vai confiar naquele que não está disposto a passar a mão na cabeça se a sua própria facção errar. Nenhum partido está disposto a criar em seu seio aquele que, vez por outra, quando necessário, aponta os erros dos seus. Autocrítica, de um partido, sempre foi balela. A crítica sempre foi vista

como um incômodo, traição, erva daninha. Ninguém perdoa o crítico, porque ninguém confia na neutralidade sincera. Ser neutro nem sempre significa ser fingido.
Ser um crítico, antes de tudo, é aprender, e se conformar, que o fator ser amado-odiado não deve ser levando em conta em seu trabalho de crítico. O excesso de admiração, a soberba, a vaidade e o ódio afetam, invariavelmente, os objetos e os objetivos do trabalho crítico. O partidarismo e a submissão são atitudes anti-críticas. Crítico por encomenda não é um crítico, é um vassalo, um mercenário. Todo e qualquer crítico deveria ler o filósofo Kant, ao menos o prefácio da primeira edição da Crítica da Razão Pura: “A nossa época é a época da crítica, à qual tudo tem que submeter-se. A religião, pela sua santidade, e a legislação, pela sua majestade, querem igualmente subtrair-se a ela. Mas então suscitam contra elas justificadas suspeitas e não podem aspirar ao sincero respeito, que a razão só concede a quem pode sustentar o seu livre e público exame”. Tudo e todos devem ser submetidos à crítica, inclusive você mesmo (o crítico). A crítica é inerente à racionalidade, e criticar a racionalidade nem de longe é o mesmo que apostar na irracionalidade.
Compactuar com o radicalismo de um partido é garantir o direito de o outro lado ser radical também, a diferença é ter uma radicalidade para chamar de sua. Em tempos em que a exposição midiática total se tornou uma profissão para muitos, ser radical, além de um traço de caráter, tornou-se praticamente um hábito cultural e uma necessidade econômica.
Aceitar críticas é um trabalho de maturidade, e eu disse maturidade, não envelhecimento. Sejamos partidários de ideias, de preferência as nossas, e de mais preferência ainda daquelas que possuímos a consciência de que podemos mudá-las um dia.

Como eu adoro te ler escrevendo a palavra "clichê". Indo além do meu afeto, esse texto me faz recordar os "pitaqueiros" das campanhas políticas. Figuras que merecem um personagem seu.
Belo texto, como todos que escreve.