QUANDO MAIS É MENOS
- Geraldo Freire
- 4 de jul. de 2020
- 2 min de leitura
Enquanto nos preparávamos para as festas de fim de ano aqui no Brasil, o mundo nos assustava com um vírus medonho e desconhecido na China. Até então as notícias eram desencontradas, incertas e passíveis de desconfiança, afinal a China é um país que controla as notícias, dentre outras coisas. Para muita gente tal vírus não parecia ser na China e sim em outro planeta. Em fevereiro – sim, em menos de dois meses – a OMS declarou que já estávamos em estado de Pandemia. No Brasil, carnaval, tudo bem. Em março, o número de óbitos explodiu na França, na Espanha, na Itália e no Reino Unido, chegamos aos milhares em poucas semanas. Para a grande maioria dos brasileiros isso tudo parecia aquelas tragédias que só acontecem no lado de lá, como nos filmes e seriados.

Em março foram confirmados os primeiros casos no Brasil, e ainda no mesmo mês as primeiras mortes. Assistindo ao que ocorria no mundo, e usando um pouco de raciocínio lógico, quase todos nós sabíamos que por aqui as coisas seriam, muito provavelmente, bem piores, fatalmente piores (como de fato está sendo), e olha que me refiro somente ao campo das mortes por Covid-19. Só o pensamento mágico ou o “pensamento” vigarista negava isso. De tão deslumbrados, ainda continuam negando. Quase todos nós sabíamos que entre uma projeção e outra dos números de mortes haveriam alguns dos nossos. Mais cedo ou mais tarde, inevitavelmente, essa pandemia levaria conhecidos nossos. Vizinhos. Colegas. Amigos. Amigos de amigos. Parentes. Parentes dos amigos. Familiares bem próximos. Ou, quem sabe, infelizmente, até nós mesmos. E pensar nisso é aterrorizante, segue sendo. Cada dia sem morrer um conhecido é uma vitória, mas os números não deixam de crescer.

Neste momento em que escrevo, o Brasil já ultrapassou as 64 mil mortes confirmadas por Covid-19*, e todos os dias vamos dormir com mais de mil mortes nas costas. Neste exato momento, no Brasil, tudo o que é mais, virou menos, mas nem sempre é fácil perceber. Mais contaminados, menos convivência. Mais mortes, menos vidas. Mais estatísticas, menos gente. Mais empresas fechando, menos empregos. Mais miséria, menos paz. Mais caixões, menos esperança. Mais tempo, menos tempo. Tudo parece números, até que a realidade bate a nossa porta e, como previa a lógica (mas não o desejo), leva um dos nossos. Ou mais de um. Olhamos os noticiários, mais casos, mais mortes, mais números, e olhamos ao nosso redor, há menos alguém aqui ao nosso lado. Perto de dormir dou uma espiadela nos números para não perder o costume: 64.365 mortes oficiais. Para mim, são 64.354 + um dos meus. E mais continua sendo menos.
Vá em paz Januário (meu sogro).

*Lembrando sempre que este número é obviamente subnotificado, e que muitos morrem por complicações da Covid-19 mas não diretamente da Covid-19, logo não entram nas estatísticas.




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