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POLITICAMENTE (IN)CORRETO: O LUGAR, A HORA E A LEI (PARTE II)

  • Foto do escritor: Geraldo Freire
    Geraldo Freire
  • 8 de jul. de 2022
  • 4 min de leitura

Atualizado: 9 de jul. de 2022

É aí que chegamos à cereja do bolo (ainda que eu não goste muito de cereja): então um comediante deve ter o direito a fazer piada sobre qualquer coisa ou assunto? Sim, segundo a compreensão que possuo sobre a liberdade de expressão na democracia, e segundo a minha noção de comicidade, os comediantes devem ter sim o direito a fazer piadas sobre qualquer coisa ou assunto. Qualquer coisa ou assunto mesmo?! Sim, qualquer coisa ou assunto mesmo! Justifico-me.

O que muita gente hoje não é mais capaz de compreender é que o mundo cibernético e virtual nos impõe uma perda, ao mesmo, de três noções psicológicas primordiais, tanto para a organização das nossas cabeças quanto para a organização das sociedades: as noções de lugar, de tempo e de limite (regra). A regra, a lei (Nomos em grego), é sempre de um lugar, de um espaço, de um território (Tópos em grego): as regras do meu quarto, as regras do meu país, as regras da minha amizade, as regras do meu corpo. Mas as regras, no âmbito humano, podem ser suspensas no tempo (Khronos em grego) de forma consciente, deliberada e negociada, mas nunca devem ser eliminadas por completo, abrimos exceções passageiras: somente hoje vou dormir sem tomar banho, somente hoje vou deixar a casa bagunçada, só por uma semana vamos poder pular, cantar e festejar nas ruas. Onde há regras (leis) há um governo, um governo de si mesmo (auto nomos) ou um governo de um lugar (politiké techne). A questão é que, aos poucos, e de forma minuciosamente calculada, o capitalismo digital nos torna seres atópicos (sem lugar), anômicos (sem regras) e acrônicos (sem noção do tempo), em outras palavras, seres deslocados e perdidos.

Não há lugar em que tudo é permitido o tempo todo, mas há lugares onde alguma coisa é permitida por algum período, e bem há pouco tempo sabíamos disso, era assim que na verdade funcionava o tecido social. Há lugares onde gritar pela glória de Deus é permitido, quase obrigatório até, mas se você fizer o mesmo em outros lugares você corre o risco de ser interditado, internado ou preso, experimente. Há lugares em que se é permitido falar sobre sexo de forma, digamos, mais libertina, e até mesmo praticá-lo da forma mais voluptuosa que você desejar, mas não é socialmente aceito que você aborde temas sexuais em qualquer lugar a qualquer momento e de qualquer maneira. Não fazemos nas ruas, todos os dias, o que fazemos no carnaval. Até o uso de drogas lícitas e ilícitas é tolerado (o tráfico está aí que não me deixa mentir), conquanto não seja de forma tão explícita (eis um dos motivos que as cracolândias incomodam tanto).

Mediante isso, por que hoje é tão difícil se compreender que, se há lugar e momento para tudo por que não haveria um lugar e um momento para a comédia? Por que não haveria um lugar em que se pode rir de tudo? Um lugar onde se pode “ofender” a todos. Pesquisem um pouco sobre a história da comédia que perceberão que a comicidade é a arte do insulto por excelência, sempre injuriou e afrontou, em especial os que estavam no poder, fossem os deuses fossem os governantes. Mas de toda forma a comédia foi feita para provocar o riso e a reflexão, não o horror gratuito, quando o riso é usado para degradar e perseguir grupos de pessoas não estamos mais falando em comédia e sim em discurso de ódio. Ora, é tão complicado perceber que há piadas que cabem num bar ou teatro, lugar fechado e com hora para começar e terminar, mas não cabem na televisão? Que há piadas que cabem na mesa do churrasco, mas não cabem na mesa do trabalho? Que há piadas que cabem no quarto, mas não na mesa de jantar durante o jantar? Mas o que cabe na internet? Esta é a questão. O problema é que, reafirmo, a internet representa hoje o bar, o teatro, a televisão, o churrasco, o trabalho, o quarto, a sala e todo o restante, e a comédia, que tinha um lugar, passou a ter todos, ou seja, nenhum. E isso não se restringe somente a ela, podemos assistir a um show dirigindo o carro, ver pornografia na sala de espera de um consultório médico, assistir à missa ou o culto no ônibus ou no metrô, podemos assistir a aula no banheiro, ser consultado por um médico andando no parque, podemos até transmitir ao vivo o nosso último momento de vida para o mundo inteiro, consentindo ou não. Não é curioso que pessoas que perderam a noção de medida (metron em grego) se preocupem com o limite (Nomos) da comédia? Já que não conseguem mais impor regras a si mesmo, por impossibilidade subjetiva, querem impor à comédia, e como ela já está em todo lugar, não percebem que é um trabalho em vão.

Você certamente pode estar pensando que escrevo isso por causa do comediante Léo Lins, do Monark, ou por causa de outro boçal desses qualquer. Não, eles não são causa, mas consequência da nossa incapacidade em reconhecer que o capitalismo digital se disfarça de qualquer coisa, inclusive da piada e opinião. Eles são apenas ignorantes e sem graça, escrevo porque o Brasil está sempre atrasado com relação a certos debates públicos, e quando ocorre é uma pena que seja por causa desse tipo de gente, que nos obrigada a levantar certas questões que não têm graça alguma.

Sei que você esperou, também, uma “solução” ou um posicionamento incisivo do tipo a favor ou contra, porém trata-se de um paradoxo e um desafio, não um paradoxo da liberdade, pois esta carrega em si mesma uma noção lógica de fronteira, mas sim um paradoxo daquilo que ao mesmo tempo nos rouba o lugar, o tempo e o limite, e em troca nos vendem uma falsa sensação de liberdade. O desafio é impormos a nós mesmos a recuperação daquelas três noções perdidas.


 
 
 

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