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POLITICAMENTE (IN)CORRETO: O LUGAR, A HORA E A LEI (PARTE I)

  • Foto do escritor: Geraldo Freire
    Geraldo Freire
  • 8 de jul. de 2022
  • 5 min de leitura

Atualizado: 2 de out. de 2025

Antes de tudo, um aviso aos intelectualmente incapazes e aos mal-intencionados: o que escrevo abaixo trata-se de uma análise crítica, e não um posicionamento político-ideológico pessoal. Se você não é capaz de estabelecer tais diferenças, nem se dê ao trabalho de ler.

Quando você está bem confuso com relação a certas discussões e polêmicas da atualidade este é um bom indicativo de que as mesmas ou já não fazem mais muito sentido ou escondem outros problemas. Quando o novelo perde as pontas só nos resta cortá-lo. O termo “liberdade de expressão” evidentemente não possui o mesmo sentido em todos os contextos histórico-culturais, diferentes conjunturas forçam mudanças em sua significação. O termo “politicamente correto”, por sua vez, em sua forma mais popular, é bem mais recente e possui uma origem controversa. Há uma indicação ao alinhamento socialista comunista da época de Stalin, afinal, o apelo a uma linguagem oficial soa bem totalitário; e há, a partir da década de 1990, um uso do termo por várias vertentes políticas nos EUA. Os liberais democratas articulavam num sentido mais político-pedagógico, já as minorias sociais percorreram outros caminhos e procedimentos. Nos EUA, a defesa pelo politicamente correto que vingou, a princípio, foi a que tinha como intenção atacar preconceitos socialmente enraizados contra negros, hispânicos, gays e outras minorias politicamente pouco representadas, fato totalmente defensável sob qualquer perspectiva civilizatória. Eles miraram no direito à dignidade e no amparo das leis, mas acertaram no uso corrente da linguagem, promovendo uma censura generalizada e uma criminalização, de forma abrupta, a muitas palavras, expressões e comportamentos culturalmente estabelecidos, que logo ultrapassou o terreno da disputa política e se fixou em comportamentos cotidianos de forma generalizada.

No Brasil, há quem diga que Dom Pedro II foi mais afeito à liberdade de imprensa do que qualquer republicano até hoje, e o estandarte da liberdade de expressão ganhou mais importância durante e após o governo ditatorial militar, por motivos óbvios. Por aqui, não faz muito tempo, o outro termo era usado quase sempre seguido de aspas, “politicamente correto”, tanto na escrita quanto oralmente (quem falava fazia as aspas com os dedos), ou seja, possuía um sentido irônico, pois para a nossa cultura é difícil compatibilizar os termos “político” e “correto” numa mesma expressão. Procurem textos jornalísticos de uns 15 anos atrás que vocês constatarão. O que vemos aqui hoje ainda é um eco super atrasado, como sempre, do que ocorreu lá. Atualmente, no Brasil, o termo serve como véu a qualquer orientação político-ideológica, e vem sendo usado como escudo, por qualquer que seja o lado, para defender-se de um agravo, real ou não, e logo em seguida acusar o outro de preconceituoso e intolerante. Como consequência de uma segunda onda proveniente dos hábitos e modinhas das redes sociais, atualmente toda esta prática é mais conhecida como “cancelamento”. Cancela-se o cartão de crédito, a consulta com o médico, a assinatura do provedor e cancela-se o outro, e tudo aparenta estar naturalmente no mesmo patamar.

A reação a isso tudo veio de forma imediata, e é exatamente aí que devemos estabelecer diferenças, pois ela moveu-se em duas frentes. Existem aqueles que concordam e até participam ativamente da luta política a favor das minorias representativas, hoje sociologicamente também chamadas de minorias identitárias, mas ao mesmo tempo alegam que o patrulhamento linguístico é, de igual modo, autoritário e ineficaz, pois tende a causar nas pessoas a falsa sensação de que ao mudar o nome da coisa o problema é resolvido, mascarando o real debate e, ao final de tudo, talvez mais atrapalhe que ajude. Estes, em geral, sustentam que as mudanças na linguagem de um povo acontecem, inevitavelmente, de forma lenta e gradual, e apostam mais na mudança da forma de pensar e de alguns hábitos sociais, mas pela via da educação adequada, a mudança no uso dos termos e das expressões certamente ei de os acompanhar. Todavia os revolucionários sempre agem às pressas, e estranhamente poucos confiam no poder radicalizente da educação, preferindo assegurar-se mais na imposição. Sempre iremos nos perguntar se os dois lados não exageram, e sinceramente me inclino a concordar que algo sempre deve ser feito diante das opressões sociais existentes, entretanto, por outro lado, muitas vezes se instaura uma confusão entre, como disse Humberto Eco, uma “sugestão moral” e a “obrigação legal”. Penso que mentes razoáveis nunca se opõem às denúncias daqueles cujos sofrimentos possuem causas sociais, o problema talvez esteja no foco, na metodologia e na medida. A luta por direitos passa bem longe dos duelos com os dicionários, e o patrulhamento linguístico além de inibir a criatividade pode causar, em algumas pessoas, uma inabilidade em discernir o que é ficção e o que é realidade histórica.

A segunda frente veio da extrema direita, nos EUA mais conhecidos como supremacistas brancos, neonazistas e congêneres, que se sentiram golpeados justamente em uma das suas principais bandeiras, a liberdade de expressão, e logo inverteram o discurso a seu favor, promovendo uma defesa aguerrida ao direito ao “politicamente incorreto”. É sempre importante deixar claro que aqueles grupos possuem uma ideia problemática de liberdade de expressão, consequentemente também possuem um conceito equivocado de democracia. Para eles, o direito a se expressar como quiser inclui, claro, o direito a ofender a dignidade dos outros como quiser, pois não fazem a mínima diferenciação entre liberdade de expressão e o direito ao discurso de ódio, apregoando sempre que se trata de uma “opinião” ou um “ponto de vista” próprios, e qualquer censura às suas palavras, geralmente de cunho racistas e segregacionistas, é visto por eles como uma forma de ditadura. Podemos, numa democracia, defender o direito de atacar cristãos brancos? Podemos “opinar” que algumas pessoas atenham fogo a templos e igrejas? Podemos defender abertamente a pedofilia? Podemos aconselhar publicamente que pessoas em crise profunda se matem? Podemos propor uma discussão pública sobre a pena capital para quem possui uma arma de fogo? Ora, por que não? E onde fica o nosso direito à liberdade de expressão? É aí que começa a confusão, e eles apostam sempre no conflito. A democracia não é um sistema político em que todos podem tudo, inclusive falar o que quer onde e quando quer, podemos o que é permitido pela lei, ou o que não seja proibido pela mesma. Eles possuem a compreensão infantil de que toda liberdade é plena, ou é tudo ou é nada. O “sistema político” em que todos podem tudo é a anarquia (sem governo), e o governo em que ninguém diz o que quer em lugar nenhum é a tirania, excluindo-se, claro, o próprio tirano. Quem defende o direito ao discurso de ódio na verdade defende uma anarquia, mas o faz, perniciosamente, em nome da democracia.

Aí alguém poderia pensar: se eles defendem o direito a ofender a dignidade alheia, então eles também aceitam o direito de outras pessoas a ofende-los, e eles admitem isso numa boa, não é? Aparentemente sim, e é o que eles sempre dizem da boca pra fora, entretanto não custa lembrar que estes são o mesmo tipo de gente que defende o uso irrestrito de armas de fogo. Será que você vai mesmo ter coragem em afrontá-lo? Liberdade de expressão sim, e democracia também, mas só para eles, para os outros resta apenas aguentar calado e ser ameaçado de tomar um tiro. Em suma, a questão para eles fecha-se em um ciclo tenebroso: defesa à liberdade de expressão – defesa ao politicamente incorreto – defesa da democracia – defesa ao porte de armas de fogo – alegação à legítima defesa. Não custa lembrar ainda que se trata do mesmo povo que defende um certo tipo de revisionismo histórico, que nega, só para citar alguns, a factualidade das escravidões coloniais e do holocausto judeu. Eles consideram que fomentar um discurso de ódio e de extermínio é de fato uma visão política. Esse novelo só se tira com um gancho.


*Este texto possui continuação.



 
 
 

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