PARA DERRUBAR A PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA BASTAM UM CIVIL E UMA CONSTITUIÇÃO
- Geraldo Freire
- 17 de ago. de 2020
- 4 min de leitura
Atualizado: 19 de ago. de 2020
“O medo dos poderes invisíveis, inventados ou imaginados a partir de relatos, chama-se religião.” (Thomas Hobbes)
Numa cidade do interior do estado de Sergipe havia um rapaz que, numa determinada época, metia medo em quase toda a população, era o vulgo “Arrebenta”. Era um jovem magro, preto, alto e de olhos sempre avermelhados, sua aparência em si não era ameaçadora, poderia até se passar facilmente por um pobre coitado, mas só quem morava lá sabia do que ele era capaz. Arrebenta era um criminoso, daqueles que não tinha medo de polícia, delegado, promotor, juiz, inimigos, batia de frente com qualquer um, e depois dos 18 anos passou mais tempo na cadeia que solto, mas quando estava liberto a cidade toda ficava em polvorosa. Arrebenta, até onde se sabia, já contava com nove mortes nas costas, além dos assaltos, dos estupros e de todas as outras atrocidades que já cometera contra desafetos e pessoas inocentes. Para o Arrebenta não havia limites, não recuava diante de ninguém, exceto perante uma senhorinha de um metro e meio, franzina, curvada, voz rouca, chamada "dona Dulcinha", mãe do Arrebenta. Bastava um peteleco dele que dona Dulcinha poderia cair longe, mas já flagraram a senhorinha enchendo o delinquente de porrada na rua, e ele não fez absolutamente nada, nem correu. Se o Arrebenta estivesse nos becos bebendo, arruaçando, somente dona Dulcinha conseguia tirar ele de lá sem ir preso. O que explica isso? Somente o fato de ela ser a mãe? O que é ser mãe para além de parir alguém no mundo?

O que explica é o que nem sempre as pessoas se dão conta de que existe uma diferença crucial entre o poder nu e o poder simbólico. O poder nu é força bruta, força física, é a selvageria, não há lei, há temor, horror, pânico, que se garante através da ameaça, dos músculos, da gritaria e do uso de armas; o poder simbólico é o respeito, é o reconhecimento e subordinação a algum tipo de lei. O poder simbólico é invisível, mas efetivo, pouco importando se se trata de um marechal ou de dona Dulcinha. Reconhecer uma autoridade é reconhecer o poder de uma lei. Lei da selva não existe, é lei nenhuma, toda lei é uma inscrição simbólica, e somente seres simbólicos são capazes de compreender e discernir.
Em outubro de 2018, circulou um vídeo do Eduardo Bolsonaro dando uma palestra no qual ele afirmou: “Será que eles vão ter essa força mesmo? O pessoal até brinca lá: se quiser fechar o STF, você sabe o que você faz? Você não manda nem um jipe. Manda um soldado e um cabo. Não é querer desmerecer o soldado e o cabo não. ”; e continua: “O que que é o STF, cara? Tira o poder da caneta de um ministro do STF, o que ele é na rua? ” Ora Eduardo, tira as estrelas e a farda de um general, o que ele é na rua? Será que você daria o mesmo conselho ao soldado e ao cabo para tomar as mais altas patentes das forças armadas? E por que não? O respeito às hierarquias institucionais só vale para as forças armadas? Por que, porque elas são armadas? Muitos soldados e cabos atiram melhor que muitos generais, e inclusive são maioria. Por que não? Tira a farda e as armas dos soldados e dos cabos, o que eles são na rua? Hoje o pai do Eduardo é presidente da República, essa regra também vale para ele? Aí eu pergunto ao mesmo: “se quiser fechar a presidência da República, como se faz?”.
O exemplo aqui é meramente figurativo, pois infelizmente há muita gente no Brasil que de fato pensa assim: ora, por que obedecer a uma pessoa aparentemente mais fraca do que eu? Por que respeitar aos pais? Por que respeitar aos mais velhos? Por que respeitar às mulheres, os gays e os pretos? Sou mais forte que eles(a). Por que respeitar ao professor(a)? Por que obedecer ao juiz(a)? Eu sou mais forte que eles(a). Gente que pensa assim não consegue compreender o sentido e a amplitude do poder simbólico, ou o poder simbólico torna-se meramente uma conveniência: a Constituição deve garantir a permanência de um presidente genocida, mas não garante a permanência dos ministros do STF, para aqueles bastam um soldado e um cabo. Lei que escolho obedecer não é lei, lei que funciona às vezes não é lei. Eduardo Bolsonaro aparenta ser mais forte, fisicamente, que o seu pai. Por que ele não lhe toma a faixa presidencial? É por medo ao poder nu ou por respeito ao poder simbólico? E outra pessoa mais forte que ele, também possui esse direito?

Muitos, nos quais eu me incluo, não respeitam o Bolsonaro como pessoa, mas devem respeitar a cadeira que ele senta, pois ela não pertence a ele, é uma instituição. Tire-se a cadeira, a faixa, a caneta, a sala presidencial toda, o que ainda sobra? A lei. Respeitar à presidência da república, o supremo tribunal federal ou o chefe maior das forças armadas é respeitar uma instituição, e não a uma pessoa; mas sujeitos autoritários, sinceramente, não pensam (ou sentem) assim, aferrenham-se em personalidades encarnadas, até que um dia encontram outros mais autoritários que eles próprios e aí tentam buscar abrigo nas leis que eles mesmos desprezaram. Pode ser tarde demais.
E aí, se quiser fechar a presidência da República, sabe o que você faz? Você não manda nem um Palio. Manda um civil e uma constituição. O que é a presidência da república, cara? Tira o poder da caneta do presidente da república, o que que ele é na rua? Eu respondo, Eduardo, apenas um homem (ou mulher), as vezes nem isso, que um dia passa, e o que importará é a lei.





Tenho uma dúvida... Respeitamos aqueles(as) ou aquilo com que, de certa forma, criamos ou temos um vínculo afetivo, sentimental, não é mesmo? tipo, na maioria dos casos, não levantamos a mão contra nossos pais... porque são nossos pais, fomos criados por eles, foram eles que cuidaram da gente. Daí eu fiquei pensando sobre o Eduardo respeitar o sistema de hierarqia do exercito, também, porque o pai dele já foi soldado... e aí... de certo modo o pai o ensinou a reconhecer e respeitar o exército. Isso não faz sentido, ou faz, mas nem sempre é o caso?
Perfeito! AAA