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O RELEVANTE E O IMPORTANTE

  • Foto do escritor: Geraldo Freire
    Geraldo Freire
  • 5 de out. de 2022
  • 4 min de leitura

Atualizado: 18 de out. de 2022

Se equivoca quem realmente acredita que o movimento ludista quebrava as máquinas, ou incitava a quebra, confiando que aquilo de fato revolveria seus problemas. Não. Era uma forma de demonstrar sua fúria contra todo um sistema injusto, era uma forma de protesto, e o que estava ao seu alcance, como a estampa e a causa do sistema, eram as máquinas. O próprio Karl Marx fez críticas a esta “forma revolucionária”, em sua época a máquina já era um fato consumado da história, tão inerente ao trabalhador de então quanto a sua força de trabalho. Para ele o movimento histórico aponta sempre para frente, os trabalhadores deveriam reconquistar aquilo que lhe fora usurpado indevidamente, e a conservação das máquinas fazia parte deste plano. O comunismo fora um sistema pensado a suplantar a burguesia e o capitalismo, não as máquinas. Até aquela ocasião, não havia como pensar um comunismo sem máquinas.

Este breve prelúdio serve principalmente para alertar aos leitores que o sentido de uma crítica às tecnologias contemporâneas, em especial as tecnologias da informação e comunicação, não significa pregar o seu fim, convém demonstrar e alertar quanto ao seu uso pernicioso e o quanto as mesmas são programadas e entregues às massas com o propósito claro de controle das nossas vidas em seus mais sutis aspectos, que enterra de vez qualquer possibilidade de autonomia do sujeito e de emancipação política dos grupos sociais diversos.

O primeiro elemento que as tecnologias da informação e comunicação se apoderam é a linguagem, em seus variados prismas, e o segundo é a imagem, todo o resto vem como consequência. Afinal, quando falamos em algoritmos, estamos falando do que? Não tenho dúvidas de que se trata de uma linguagem que percebe, monitora e age sobre outras linguagens, nos fornecendo imagens programadas e acabadas em todos os nossos meios eletrônicos. É um Frankenstein montado a partir do que os algoritmos captaram de nós mesmos. É exatamente neste ponto em que o termo “relevante” liga-se ao significante “conteúdo”.

Nesta seara, introduzimos o tema da “relevância/importância” dentro do círculo simbólico dos valores. São formas distintas de valores, mas que o algoritmo, através da sua força de repetição, consegue incutir nas mentes alheias que se trata de um mesmo significante. A maquinaria digital sabe bem escolher as palavras, e o peso simbólico sobre o “relevante” é tão poderoso que se sobrepõe ao “importante”, ao ponto de muitos de nós nem saber mais o que significa “importante”. Você possui um conceito claro, para você mesmo, sobre o que é relevância e o que importância? O algoritmo te fornece, 24 horas por dia, o que você deve considerar relevante, em especial na forma de imagem, quais personalidades, assuntos e produtos devem ser valorizados, entretanto é sempre você quem deveria decidir o que carregar para dentro de si (importar), ou seja, o que de fato é importante para você.

Toda a maquinaria tecnológica é projetada para que aos poucos não mais sejamos capazes de diferenciar entre os meios (mídia) e os fins (finalidade, objetivo) das coisas, e são tão eficientes em seu empreendimento que o resultado foi que passamos a cultuar os meios, as mídias eletrônicas, pouco importando o que são inseridas nelas e para quê, desprezamos os fins. Sempre que aparece um novo nome “relevante”, de uma pessoa ou de uma coisa, eu tento compreender o porquê da relevância daquilo, e, na maioria das vezes, a relevância se dá porque passaram a reproduzir aquele nome indefinidamente (viralizar), o que a pessoa ou coisa de fato faz, ou diz, fica em último plano, as vezes tão em último que nem encontro. E claro, a sua relevância é cronometrada com a certeza de um relógio atômico, podemos aguardar que em poucos minutos aparece o próximo objeto relevante do dia. É nesta arena em que um terraplanista ganha mais relevância do que um pós-doutor em física quântica, a mesma em que um onanista de 14 anos consegue persuadir mais pessoas, sobre qualquer assunto, do que um professor universitário de lógica.

Os grupos de extrema direita já faziam uso dessa técnica muito antes de inventarem todo o tipo de tecnologia que possuímos hoje, só fizeram adaptar o seu discurso aos meios atuais, e com muita destreza. Capitalismo digital e fascismo, mais que nunca, andam de mãos dadas. Autoritarismo e neopentecostalísmo também. O discurso de ódio e o discurso da promessa da graça divina, como sempre na história, movimentam mais os sujeitos do que qualquer forma de manutenção da educação e do juízo crítico. Eis porque estamos perdidos, ao menos, por um bom tempo.

As gerações mais recentes crescem absorvendo o valor da relevância, mas não o da importância. Levamos muito tempo na vida para compreendermos o que realmente importa, e dá muito trabalho, mas aquilo que é relevante, já raciocinaram por nós. O que devemos fazer, abandonar as redes, quebrar os smartphones? Não sei, é uma decisão de cada um(a). Só posso dizer que perguntar a si mesmo todos os dias o que mais importa para a sua própria vida já é um bom começo. Quanto tempo por dia você gasta no Instagram? Quantos livros você tem lido ao mês ultimamente? Talvez poucos, ou nenhum, mas aqueles que planejam o que deve se tornar relevante para você com certeza lê alguns.


 
 
 

1 comentário


gleifersonviana
06 de out. de 2022

Belíssimo texto, meu amigo Freire!

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