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O PRESIDENTE E O PICADEIRO

  • Foto do escritor: Geraldo Freire
    Geraldo Freire
  • 13 de abr. de 2020
  • 6 min de leitura

Atualizado: 23 de abr. de 2020

Quando o assunto é a presente situação política do Brasil, sei que o primeiro ímpeto literário, de quem não concorda e não simpatiza nem um pouco com o Bolsonaro e sua trupe, seria provavelmente escrever um texto transbordando adjetivos. Em primeiro lugar, esse não é o meu estilo. Em segundo lugar, ainda que fosse, penso que todos os adjetivos já foram usados, a favor e contra. Quiséramos nós que o presidente fosse “apenas um incompetente”. Então prefiro seguir com algum tipo de crítica analítica: política, sociológica, psicológica, psiquiátrica, mas uma crítica.

Em 2019, em meados do ano, devido aos estrambólicos acontecimentos políticos, eu tinha tomado a decisão de que eu passaria um bom tempo sem ler ou ver determinadas notícias e conteúdos jornalísticos. Alguns canais de televisão eu já não via mesmo há anos (os quais, quando esta onda passar, espero que a história não se esqueça de mencionar seus funestos apoios a este tipo de “governo”), algumas emissoras de rádio eu simplesmente excluí pra sempre, alguns canais do Youtube também, e, aos poucos, fui eliminando praticamente tudo que fizesse menção à política brasileira naquele momento. Infelizmente minha diligência durou pouco, não consegui. Não porque eu não tenha me esforçado, é que, dia após dia, tornou-se impossível fingir que nada acontecia e que eu não me indignava. Lamentavelmente estamos diante de um presidente, e seu respectivo “governo”, que realmente acha que governar é chamar a atenção a todo o instante. Bolsonaro não nos deixa em paz. Alguns chamam isso de populismo, mas, sinceramente, penso que há algo muito além disso. Bolsonaro foi eleito sabendo que dá certo, realmente cola, encobrir a sua falta de projeto político (o qual, sejamos francos, ele nunca disse que tinha), e sua inaptidão ao governo, lançando diariamente “polêmicas”, asneiras, bestianices para chamar a atenção “do público”. Sim, para Bolsonaro não há povo, cidadãos, há picadeiro e plateia. Não somente de seus adeptos, mas principalmente de seus desafetos, de toda a imprensa, inclusive a internacional. Todo palhaço é anarquista. Algumas destas palermices são premeditadas, outras improvisadas, mas todas irracionais. “Governar é fazer graça”, eis o real slogan do seu “governo”. O filósofo Montesquieu disse, em sua obra O Espírito das Leis, que o poder das instituições políticas deve ser “invisível”: “teme-se a magistratura, e não os magistrados”. O melhor governo é aquele em que a gente nem percebe que ele existe, cumpre bem a sua função sem interferir muito no nosso dia-a-dia, nos permite trabalhar, estudar, se expressar, seguir a vida. É uma entidade essencial, mas deveria funcionar sem alarmismos, celeumas, shows. Sem sombras, mas também sem gritaria. O real poder está na posição, no ideal e na lei abstrata, e não em quem o ocupa. Mais política e menos presença dos políticos. Que saudade daqueles políticos que só apareciam de quatro em quatro anos.

Bolsonaro deu um tiro pra cima e acertou em Guy Debord. Intuitivamente, sem ler uma linha de qualquer livro, realizou integralmente aquilo que Debord denominou de “sociedade do espetáculo”. Com Bolsonaro, o espetáculo de mercado, forma de dominação burguesa, e o espetáculo de Estado, forma de dominação totalitarista ou populista, fundiram-se em um só. A alienação, compreendida principalmente como um aspecto da psicologia individual, como as emoções e as expectativas, assumiu agora novas formas e novos conteúdos no interior do modo capitalista de organização social, e a peça que faltava, a mais eficiente, empregada de forma voluntária, foram as redes sociais. O fetichismo da mercadoria se converteu em fetichismo total da presentificação da vida comum. Não queremos mais ter produtos, queremos ser produtos. Será que eu não estaria gastando conceitos marxistas complexos e categorias de análise rebuscadas para tentar avaliar um governo que poderia ser meramente denominado de incoerente e insano? Só posso dizer que, tratando-se das ações do Bolsonaro, quase todos erraram até agora, até os que o apoiavam. Ser irracional é ser imprevisível, menosprezá-lo é torna-lo maior.

Narremos alguns fatos. No dia 05 de abril de 2019, o presidente declarou: “Desculpem as caneladas. Não nasci para ser presidente, nasci para ser militar”. E complementa: “Às vezes me pergunto, meu Deus, o que fiz para merecer isso? É só problema”. Ora, presidente, você se candidatou... e ganhou, não?! Em 17 de maio, também do ano passado, o presidente mesmo replicou um texto de um “autor desconhecido” que afirmava que o Brasil é um país ingovernável. Entre fevereiro e março deste ano, Bolsonaro assumiu e desassumiu várias vezes que apoiou e propagandeou protestos e manifestações populares a favor do seu “governo”. Parafraseando o jornalista Reinaldo Azevedo, protesto a favor não existe, assim como não existe aplausos contra. Isso não é cretinice, é pura sinceridade da sua parte. Ele é convicto de que o povo e o estado brasileiro não cedem a um governo competente, o seu país está fadado, destinado, a ser uma terra sem lei, ordem e governo. Só nos resta resignação, só mesmo Deus acima de nós.

Bolsonaro é, simplesmente, o presidente que não queria ser presidente. É o governo que não queria ser governo. O “líder” que não reconhece lideranças. Líder do que? De qualquer coisa, menos um líder político. Este lugar nunca lhe foi confortável, diariamente o presidente fala do próprio governo como se não fosse o seu. Ele fala do Brasil e dos brasileiros como se não fosse ele o chefe do executivo deste país e deste povo. Ele não faz questão de se quer parecer ser o presidente. Como disse Maquiavel: “[...] não precisa ser piedoso, fiel, humano, íntegro e religioso, bastando que aparente possuir tais qualidades [...]”. Não basta ganhar a eleição para presidente, tem que querer ser e parecer um presidente.


A política não presta e os políticos muito menos, este é o jargão que não lhe sai da boca nem mesmo quando ele se tornou o chefe maior do poder executivo. O presidente não se considera um político, não é fingimento, é a mais pura sinceridade. Ele não quer e nunca propôs rearranjar a política no Brasil, ele quer que ela não exista. Ele não quer ser um ditador, ele quer que não haja governo algum. Que nome dar a isso? Sociopatia? Ele é um tipo de kamikaze político, acredita que vencer é destruir os dois lados. Ele trata as medidas do seu governo como se não fossem suas, corrobora, assina um documento e minutos depois diz e faz exatamente o oposto. Seus ministros (estes sim acreditam estar à frente de uma revolução política) tomam medidas e ele mesmo contravém; eles não conversam entre si, dando a impressão de que há vários governos, e Bolsonaro não faz parte de nenhum deles. O problema não é ideológico, está na esfera da convicção paranoica, a causa é psiquiátrica mesmo. Quando lhe cobram obrigações de presidente, ele se diz cidadão comum, como seu direito de ir e vir, mesmo em momentos de isolamento social causado por uma epidemia mundial. Quando lhe cobram obrigações de cidadão, ele se diz presidente, e usa o poder da imagem e da caneta institucional.

E quem não compreende, ou ao menos crê, na política, por tabela também não vê sentido algum na existência de partidos políticos. Bolsonaro já foi filiado a nove partidos. Não faço juízo de valor sobre isso, e sim constato que no fundo ele sempre preferiu estar em nenhum. Há quantos dias ele está sem partido mesmo? Agora sim ele se sente abençoado, e não faz esforço algum para que seu partido seja realmente criado. O PSL, para ele, foi simplesmente um mal necessário, e ainda que o partido tenha se adaptado a ele, no Brasil inteiro, ele o abandonou. O partido tornou-se a sua cara: denúncias de racismo, truculências, incitações à violência e ao ódio e desrespeitos dos mais variados tipos possíveis. Observem que de 2019 para cá, é só aparecer um caso bizarro envolvendo políticos que há quase sempre um PSLista envolvido. Isso sem contar as várias acusações de corrupção. Sim, corrupção, aquele demônio que eles prometeram exorcizar do Brasil.


Bolsonaro conquistou fama e reconhecimento em espaços alheios à política, e não no púlpito da câmara dos deputados. Primeiramente na TV, a partir de programas de fuxicos e futilidades, depois migrou maciçamente para a internet, tornando-se popular falando sobre qualquer coisa, menos sobre política. Foi o malandrão tagarela, o folgazão das massas, que foi obrigado a tornar-se político, ainda que já fosse deputado há décadas, e não o político que se tornou celebridade. Depois de 27 anos como deputado federal (e dois como vereador da cidade do Rio de Janeiro) Bolsonaro realmente acostumou-se a não ter suas palavras e atos levados a sério, e nunca fez a menor questão disso, mas agora ele é presidente da república. Neste exato momento ele não representa mais ele mesmo, ou a sua família, ou o estado do Rio de Janeiro, ele não representa mais, à força da lei, uma facção, ele representa o Brasil, dentro e fora dele; mas, no fundo, no fundo, ele gostaria mesmo era de ainda estar sentado numa cadeira da Câmara dos Deputados, no fundo, rindo de todos nós sem precisar fazer esforço.


 
 
 

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