O MITO À BEIRA DO RIO LETE
- Geraldo Freire
- 10 de fev. de 2021
- 4 min de leitura
Atualizado: 12 de fev. de 2021
Muitos dos que fazem oposição ao presidente Bolsonaro não se conformam com o fato daquele ser denominado "mito" nas redes sociais e por onde passa, e isso desde antes da sua campanha presidencial. Ora, por que se incomodar tanto? Sabemos que o termo mito, assim como vários outros vocábulos, no decorrer do seu uso passou a adquirir sentidos diversos, muitas vezes até bastante destoantes do original. Não me arriscaria a perguntar a um “bolsonarista” o que ele entende por “mito”, mas gostaria de lembrar a você que, na língua corrente, no português e em várias outras línguas, mito também pode significar: “falsa história, lenda (no sentido pejorativo), mentira, farsa, crenças vazias”. Duvido que entre bolsonaristas hajam mitólogos, ou mitologistas, ao ponto de que quando vociferam “mito” na verdade eles estejam chamando Bolsonaro de “narrativa fantasiosa que explica a origem de alguma coisa através de relações entre deuses”.
Há, além disso, uma outra questão a ser considerada, por mais poderoso que possa ser um mito, ainda assim ele se sustenta naqueles que creem nele. Seu poder encontra-se naquilo que é mais movediço e frívolo no ser humano: suas crenças. No filme “A Fúria dos Titãs”, na versão original de 1981, a cena final é justamente um simpósio entre alguns deuses do Olimpo. Segue diálogo entre Zeus, deus dos deuses gregos, e a deusa Hera:
Zeus: – Perseu venceu. Meu filho triunfou.
Hera: – Um jovem afortunado.
Zeus: – A sorte é aliada da bravura.
Hera: – Que precedente perigoso. E se surgirem mais heróis como ele? E se a coragem e a imaginação se tornarem comuns entre os mortais? O que seria de nós?
Zeus: – Não precisariam mais de nós. Mas, por enquanto, há covardia, preguiça e falsidade suficiente na Terra para durar uma eternidade. Eu proíbo que se vinguem de Perseu. Ele se saiu bem.
E completa:
Zeus: – Enquanto o homem viver na Terra e olhar para o céu maravilhosamente ele se lembrará da coragem de Perseu para sempre. Até mesmo quando, nós, os deuses, formos abandonando ou esquecidos. As estrelas nunca se apagarão. Nunca. Elas brilharão até o fim dos tempos.
Diálogo simples e direto, mas que considero espetacular e certeiro, pois acaba por advertir justamente que apesar de imortais os deuses podem sumir, desaparecer, exatamente se os homens deixarem de crer neles. Sua “morte” é o esquecimento. O diálogo também esclarece de fato a diferença entre a representação de uma coisa concreta e a representação de uma coisa abstrata. Ainda que você não “acredite” em vírus ou no planeta Júpiter eles continuarão aí e lá, firmes e fortes, as suas existências não dependem da sua crença na existência deles. Não criamos coisas concretas, apenas as descobrimos, nos deparamos com elas, ou as ignoramos. É muito diferente por exemplo em você acreditar no amor, em papai Noel ou na Justiça, no dia em que você deixar de crer nestes eles de fato não existiram mais, para você. Até deuses somem da face da terra sem deixar vestígios.

A história da humanidade, até agora, passou mais tempo crendo em vários deuses ao mesmo tempo do que em um só, os quais a grande maioria das pessoas hoje não sabem de cor mais que um ou dois nomes daqueles deuses mitológicos. Esse “um só”, por acaso, não tem nome. Qual o nome de Deus? Zeus, Odin e Osíris são nomes próprios de deuses, mas qual o nome próprio de Deus? Perceberam a sacada dos hebreus? Elohim, ou Eloim, não é um nome próprio, não é um substantivo, não é o nome do deus dos hebreus, nem o nome de Deus para os hebreus, pois, segundo aqueles, eles estavam diante justamente daquilo que nomeia tudo mas que não pode ser nomeado, apontado, identificado, intitulado por nada nem ninguém. Javé, Jeová, Eloah, El e Elim não são substantivos, são adjetivos, adjetivos que representam Deus, mas que não o nomeia. São qualidades, não nomes. São glorificações, não denominações. Qual a consequência disso? Em pouquíssimo tempo, na história da humanidade, muitos povos trocaram, claro que muitos contra as suas vontades, seus deuses que possuíam nomes e sobrenomes por um Deus que não possui nome algum, pois isso eterno. Sacada de mestres. Por mais que cada religião monoteísta, ou mesmo cada pessoa, propague ideias e sentimentos diferentes deste mesmo Deus, ele nunca será esquecido, pois sempre será esta “coisa sacra acima de todos nós”. Muda-se de conteúdo, mas nunca de forma.

Se os bolsonaristas de fato possuem a consciência de que designam o seu presidente como um deus, um mito, é bom lembrar que Priapo já foi um deus grego, assim como Coalemos (deus da estupidez) e Anoia (deusa de demência) também já foram, e é bem possível que até os gregos do século III a.C. nunca tenham ouvido falar deles, imagina você.
Sei que essa é uma sugestão política muito estranha, e vou desenvolvê-la melhor no meu próximo texto, mas o tão esperado, por muitos, “fim” de Bolsonaro e do bolsonarismo depende muito mais em não falar dele do que em acusa-lo de qualquer coisa. Ser chamado de mito, autoritário, misógino, racista e assassino ele suporta tão bem quanto a tranquilidade de comer um pão com leite condensado, o que ele não suporta é não ser chamado de alguma coisa.
No texto seguinte falarei sobre uma experiência que talvez nenhuma rede de mídias tenha ousado fazer até hoje.






Que incrível... Saudades de ler seus textos. A cada texto novo, apesar dos novos conhecimentos adquiridos, sinto como se eu não soubesse de nada.