NÃO SOMOS PIORES QUE O FUTURO
- Geraldo Freire
- 5 de ago. de 2021
- 2 min de leitura
Atualizado: 6 de ago. de 2021
“Triste de uma nação em que os professores não acreditam no futuro”. (Gê Frayer)
Existe entre nós, brasileiros, uma confiança e um pensamento comum de que as gerações futuras serão sempre, necessariamente, mais inteligentes e capazes do que as presentes. Uma crença de que as gerações futuras irão nos considerar verdadeiros bárbaros, ignorantes e incapazes. É muito comum ouvirmos frases do tipo: “no futuro, os nossos netos e bisnetos acharão um absurdo isso tudo o que está acontecendo no Brasil agora”. Afirmo que esta é uma falsa ideia, mera crença ou repetição vazia, pois nada de concreto nos garante que as gerações futuras serão melhores do que as de hoje, e, a depender, poderão ser, sob vários aspectos, até piores.
Este tipo de afirmação segue a trilha de uma herança ideológica, uma mistura de esperança cristã e confiança iluminista no progresso, de que no futuro tudo será, necessariamente, melhor, ou porque Deus assim sempre o quer ou porque o homem assim sempre o deseja, mas que não encontramos nenhum indício na realidade a não ser quando nos pautamos pelas coisas, os nossos carros, as nossas casas, nossos instrumentos em geral, mas quanto ao ser humano a sua existência ética parece possuir uma compulsão à regressão e à auto aniquilação.

Se analisarmos simplesmente por uma questão de lógica imediata a sentença de que no futuro as pessoas serão sempre mais inteligentes e capazes do que as do presente, o que explica o buraco em que nos encontramos hoje no país? Afinal, as pessoas do presente já pertenceram a algum futuro, não? Já se esperou alguma coisa delas no passado, não? E o que vemos agora? Se esta fosse uma verdade inexorável, deveríamos hoje habitar o melhor dos Brasiles possíveis, mas o que presenciamos é uma regressão bem séria da capacidade lógica, crítica, analítica e do gosto de uma grande maioria no Brasil. O que assistimos é uma negação da ciência, negação do bom senso, e, consequentemente, uma negação da vida política pautada em princípios republicanos e democráticos. O que explica, em pleno 2021, falarmos em terra plana, antivacina, comunismo e golpe de Estado? O que explica assistirmos mais de meio milhão de pessoas morrerem por explícita negligência política e os responsáveis passearem livremente em motociatas como se não tivessem nada a ver com isso? O caldeirão está pronto e fervendo, não falta mais nada, e devemos tudo isso a uma “geração melhor”, segundo a ótica do passado. E tudo o que reitero aqui não se trata da maioria numérica da população, mas a maioria que realmente faria a diferença, a que governa, a que legisla, a que julga e a que deveria orientar todo o restante.

E, finalmente, tal crença pode não ser verdade simplesmente por ser possível não haver uma geração futura. Por que? É concebível ocorrer uma catástrofe? Sim, simples assim. Ou o que vivemos não é uma catástrofe em seu sentido pleno? A não ser que você considere um mundo The walking dead ou uma 3° Guerra Mundial algo digno de se chamar futuro, sim, pode não haver um futuro, e isso depende muito mais do que “você” pensa agora do que os seus filhos, netos e bisnetos pensarão no futuro.





Simplesmente perfeito!!!
Eita que sempre o professor Geraldo faz-se muito profícuo em suas assertivas. Tiro meu chapeu para o nobre amigo. Ah se os ditos humanos e eruditos fossem mais reflexivos! - O mundo seria bem mais diferente. Oxalá que ao menos nós de fato, o sejamos. Outrossim, eu acrescento: "triste da nação que nem os professores creem no futuro"..... certamente uma nação com esse tipo de pensamento está fadada ao fracasso.
É muito triste viver numa nação na qual a alienação tornou-se sinônimo de erudição e que a sensatez passou a ser tachada de burrice. Realmente, são tempos estranhos. Vivemos num país onde se exalta a estupidez e a barbárie como se essas condições fossem dignas de algum tipo de deferência.
Uma reflexão muito pertinente. Não adianta dar esperança de futuro aos outros e não guardar nada dela para si. Portanto, agir agora - e acreditar que isso vai nos render frutos - é o que nos cabe. Mais até: um imperativo moral.