MONARK MONARETA MIRIM ARO 14
- Geraldo Freire
- 1 de nov. de 2021
- 8 min de leitura
Atualizado: 9 de fev. de 2022
“Uma palavra mal colocada estraga o mais belo pensamento.” (Voltaire)
Gostaria de começar este artigo com alguns questionamentos, reflitam um pouco antes de responder: como você sabe que está de acordo com o seu tempo? Ou, de outra forma, como você sabe quando não está em consonância com o tempo presente? Que tipo de novidade você estranha? A qual geração, afinal, você pertence?
Antes de tudo, o termo “geração” pode realmente possuir várias concepções, e o termo “pertence a minha geração” mais ainda. O critério que define uma geração não é exclusivamente temporal, ou de uma sucessão biológica, mas muito mais cultural. Defino aqui, a título de explanação, que aquilo que pertence à sua geração, socialmente falando, é aquilo que começou a surgir, ou teve um salto muito grande em sua importância, junto com você. Seja uma coisa, uma ideia ou um costume. Quando eu nasci a televisão já existia, há décadas, e mais antigo ainda era o telefone. Mas eu presenciei uma reviravolta nos sistemas televisivos, como programas ao vivo e transmissões via satélite, contornos nunca antes imagináveis. Sei que isso não representa grande coisa hoje, e nem preciso explicar os motivos, mas na época era uma fantástica novidade ver algo ocorrendo do outro lado do mundo em tempo real. O telefone, por sua vez, ganhou vários formatos, foi ficando cada vez menor, portátil, ainda que circunspecto aos limites da residência, e se tornou aos poucos até mais disponível. Poderia citar também a vitrola e os toca-fitas. Por isso a “minha geração” foi bastante marcada e identificada com tudo o que girava em torno do mundo da TV e do telefone. Eu vi os videogamers surgirem e se popularizarem, os aparelhos celulares também. Os computadores portáteis, a Microsoft, a internet. Eu vi a telefonia fixa dar seus últimos suspiros, assim como a TV aberta está dando agora. Vi tecnologias, dentre outras coisas, surgirem e sumirem na mesma velocidade, como o videocassete, a calça de camurça, o grunge, o aparelho de fax, os blazeres, a lambada, as bandanas, o disquete, os tênis mocassim, o bipe, os Illuminati, a pochete, o axé music, Romário, a calça de cintura alta, as ombreiras (para homem e para mulher) e até o CD e o DVD .

Eu era adolescente quando a internet surgiu, e para mim ainda soou como “algo do meu tempo”. Já as redes sociais não. Elas surgiram quando eu já me considerava apto a reivindicar uma certa autonomia intelectual, uma certa consciência de um pensamento crítico-analítico, eis porque me considero um observador das mesmas até hoje. E ser crítico das redes sociais não significa negá-las, amaldiçoá-las, reduzi-las unicamente ao seu sentido nocivo, e sim, como toda verdadeira crítica, chamar a atenção, avaliar o peso dos seus benefícios e os riscos do seu uso, descortinar algumas realidades que o deslumbramento e o viés ideológico não permitem aparecer. Ou alguém discorda que a bandidagem também não está adorando ver nossos dados rolando livres e soltos por aí? Muitos deles publicizados até por nós mesmo. Ou alguém também discorda que o renascimento da extrema direita no mundo está diretamente ligado, principalmente, à alta conectividade e a fácil adesão que as redes sociais são capazes de gerar, formando uma verdadeira rede mundial do mal? Se você tem entre uns 13 e uns 26 anos, as redes sociais são coisas da sua geração, assim como os serviços de streaming são coisas da sua geração, e você certamente só vai ter consciência disso daqui a alguns anos, quando elas sumirem.
Semana passada, dia 26 de outubro, para ser mais exato, um certo rapaz com nome de marca de bicicleta, que tem 31 anos, escreveu algumas coisas no Twitter que geraram polêmica. Este rapaz, que por sinal vive do mundo da internet, seja pelos canais de gamers seja pelo seu podcast no YouTube, o “Flow Podcast” (o YouTube é um programa, um aplicatico, de canais, os quais cada um pode ter o seu, ou até mais de um, isso era o sonho de qualquer criança e adolescente nos anos 80 e 90, ter um programazinho que fosse; o podcast, que possui um nome que soa bem aos ouvidos, e que há uns três anos atrás ninguém sabia o que significava, não passa, neste caso, de um programa de entrevistas), é um exemplo dos quais eu sinceramente fico em dúvida se a internet é ou não uma coisa da sua geração. E por que? Vamos primeiro aos fatos, às suas declarações no Twitter: “É a ação que faz o crime e não a opinião”. E depois de um comentário de um advogado, ele lança na sequência a “simples e inocente” pergunta: “Ter uma opinião racista é crime?”; após a irradiação para além das paredes do Twitter, o programa de entrevistas dele perdeu os patrocínios do IFood e do Trybe, o que é bastante irônico ver um defensor tenaz de teses liberais, se não anarquistas, tomar lição de moral das leis de mercado. No dia 01 de novembro (hoje), não satisfeito, ainda emendou no mesmo lugar: “Minha opinião ainda é que liberdade de expressão é também permitir que ideias que possam ser consideradas preconceituosas sejam expressadas até para que possam ser corrigidas. Apenas o diálogo e educação podem acabar com preconceitos” (os erros de português credito a ele).

Não, meus caros, não se trata de um intelectual provocador, ou um erudito que adora rir das nossas caras com seus anagramas lógicos. Trata-se de alguém que sempre deixa claro, nas entrevistas que ele conduz em seu podcast, que a liberdade de expressão é um direito acima de todo e qualquer outro direito. Ou seja, o meu direito de dizer qualquer coisa é maior do que qualquer outro direito, inclusive o seu direito à dignidade humana. Aí ficam as incógnitas: será que as tecnologias, além afetarem as barreiras do espaço e do tempo, também levaram junto as noções de público e de privado? Será que as tecnologias instantâneas são os últimos baluartes que separavam as gerações? O rapaz com nome de marca de bicicleta não pertence à geração das redes sociais, e por isso supostamente erra por falta de noção, ou ele é um legítimo representante desta geração, e por isso erra por negligência?
Existem, da minha parte, duas respostas para o questionamento do rapaz com nome de marca de bicicleta, uma legal e outra lógica. Comecemos pela mais fácil de responder, a legal. “Ter uma opinião racista é crime?”; Sim, é crime! Por que? Porque a lei diz que é. Simples assim! Racismo é crime no Brasil (Lei nº 7.716 de 5 de janeiro de 1989), como a pedofilia é crime, como assassinato é crime. Não, não estou exagerando ao colocar estes crimes na mesma frase. Se você encara assim, é porque acha que racismo é um crime menor, uma simples “gafe social”, quem sabe uma “opinião”, que pode ser reparada, se for o caso, com um trivial e forçado pedido de desculpas público “caso alguém tenha ficado ofendido”; ou simplesmente você faz parte de alguma casta social que nunca passou por uma situação de racismo e nunca passará. Ah, e antes que alguém pleiteei, não existe racismo reverso!

Quanto à reposta lógica, eu iniciaria com uma pergunta: meu caro rapaz com nome de marca de bicicleta, o que é racismo? Defina racismo. Existe racista sem opinião racista? Existe opinião racista sem o racista? Existe algum aspecto positivo no racismo? Se sim, qual? A trapaça, bastante comum, está em querer separar a “opinião” de uma “opinião racista”, e uma vez que você afirma que ter uma “opinião racista” é crime, você estaria condenando junto o direito em ter opiniões. É, como se diz hoje, uma “pegadinha do malandro”. Mas no português bem falado trata-se de uma falácia lógica, ou sofisma. A pegadinha na verdade já estava armada na afirmação anterior, quando ele disse: “É a ação que faz o crime e não a opinião”. Como o “ato” de dizer – pela fala, pela escrita ou pelos gestos – pode não ser percebido como uma “ação” em si mesma? É sintomático desses tempos que “o dizer”, o expressar-se, não seja considerado uma ação. Apenas dar um soco, um tiro, dirigir um carro, ou malhar na Smart Fit, sejam considerados ações.
Por que esta resposta é uma abordagem lógica? Sim, você pode ser racista sim. Sim, você pode ter opiniões racistas sim. Sim, você pode conversar livremente com seus pares (outros racistas) num ambiente privado sobre ideias racistas, o que não se pode, segundo a lei, a moral e a dignidade humana, é defender publicamente o racismo. Mas, sinceramente, duvido que alguns compreendam isso, pois onde falha a lógica em geral também falha a moral, e em seguida a lei. É outro sintoma desta geração das redes sociais não compreender a diferença crucial entre uma opinião privada e uma opinião pública. Afinal, muitos se sentem na obrigação de postar o que sentem e pensam de 5 em 5 minutos, e isso realmente causa uma sensação de possuir um direito que não possuem: o de dizerem o que quiser em público. Ah, e antes que eu esqueça, a internet é sim um espaço público, mesmo que o smatphone, o notebook, e a conta do provedor sejam suas. Afinal de contas, quando você diz algo na internet você diz para quem? Poderia até imaginar a resposta digitada pelo rapaz com nome de marca de bicicleta: “Ah, basta não ler, não estou obrigando ninguém a ler ou me seguir nas redes sociais”. É a velha tática de culpar as vítimas, podemos nos sentir ofendidos, mas não podemos, nunca, recriminar o ofensor, afinal, ele está em seu “direito”.

Quanto à sua afirmação do dia 01 de novembro: “Minha opinião ainda é que liberdade de expressão é também permitir que ideias que possam ser consideradas preconceituosas sejam expressadas até para que possam ser corrigidas. Apenas o diálogo e educação podem acabar com preconceitos”, o raciocínio é o seguinte: primeiro eu chamo insultuosamente alguém de “neguinho”, e, “caso ele se ofenda”, aí, quem sabe, com diálogo, eu me torno um iluminista em dois segundos. Primeiro você testa se a sua opinião é racista, ou preconceituosa, a depender da resposta do público, se a sua opinião é ou não racista, acontece um ato pedagógico, você aprende. Primeiro você diz qualquer coisa, você tem esse direito inalienável, e a depender da repercussão, você instrui-se. Você, com 31 anos, não é capaz de raciocinar antes, você deixa que o tribunal da internet decida sobre a moralidade de cada “opinião” sua. Foi isso o que ele disse. Faz sentido?
Com o pretexto infantil de que “querem nos calar”, é muito triste e preocupante hoje como a bandeira da liberdade de expressão seja fincada em terrenos tão pantanosos e repugnantes, como é defendida pelas mais inescrupulosas figuras públicas, e como vem sendo transformada em sinônimo de permissão para cometer crimes, tal qual um escudo que protege aqueles que estão determinados a violar todos os outros direitos. E não, não é culpa exclusivamente desta geração, ela está mais para vítima disto, pois está sendo educada a partir de uma quantidade de estímulos e informações que a sua capacidade metal e moral é capaz de elaborar, testemunhando valores humanos serem relativizados e liquidados muitos antes que eles mesmos possam ter sido compreendidos ou experimentados.
Não, meu caro rapaz com nome de marca de bicicleta, ninguém quer te calar, e a prova é que você continua na mesma toada, e continuará. Você tem o direito sim em ter opiniões e expressá-las livremente, e não há nada de errado em ter opiniões, mas existem sim opiniões erradas, indignas de existirem, quanto mais de serem ditas. Pense muito antes de dizer. Há sempre algo de errado em todas as gerações, mas ouça este conselho que vem de incontáveis gerações passadas. E o tempo mais felizes da minha vida foi quando eu vivia em cima de uma Monark Monareta mirim vermelha, aro 14, para cima e para baixo.





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