GENTE BONITA E SELECIONADA
- Geraldo Freire
- 8 de dez. de 2021
- 2 min de leitura
* Por Alfredo Oliveira Marques.
As colunas sociais não mentem: talvez não exista algo que dê mais orgulho ao brasileiro médio do que frequentar espaços com “gente bonita e selecionada”. Trata-se de uma espécie de pragmatismo nacional, que poderia substituir os dizeres positivistas de nossa bandeira. Onde se lê “Ordem e Progresso”, quem sabe seja mais verossimilhante “gente bonita e selecionada”.
Está enganado quem presume que a frase delimita a ostentação isolada de uma elite embrutecida; pois ela condensa, também, e isso é o mais importante, os anseios de um mito comum. Agora mesmo, quando descobri que amanhã será realizado mais um carnaval fora de época, enquanto as festividades do Réveillon foram canceladas por causa de uma medida sanitária, eu não pude deixar de notar que parte do povo e da elite estão nesta empreitada juntos, ao esgotarem um a um os lotes de vendas da micareta, apesar de estarem pré-determinados e separados por camarotes, blocos e pista. Mas, conforme a tradição de subalternação anual, haverá ritos e convites especiais para os lugares de privilégio do evento, onde as pessoas ditas bem-apessoadas conhecerão os selecionados herdeiros das dinastias locais. Na pista, uma multidão se esmagará uns contra os outros, orgulhosos por vestirem seus insignes e suados abadás; enquanto, fora dos portões, no lugar em que um dia foi a antiga e conceitual pipoca, taxistas e motoristas de aplicativo somarão a maior parte dos soldos para os preços módicos dos combustíveis. E claro, tudo isso embalado ao belíssimo uníssono de algum “Aê, aê, aê, aê / Ei, ei, ei / Oô, oô, oô”.

Uma coisa é certa nesta festança, no final, tudo ocorrerá bem. Imunizados festejarão com imunizados; a classe média pagará, se a inflação permitir, todas as parcelas do distinto abadá; e alguns medalhões da cidade sairão um pouco mais ricos e, por conseguinte, mais generosos, o que, por sua vez, permitirá, no ano que vem, talvez algumas extravagâncias eleitorais.
Àqueles trabalhadores e trabalhadoras que dividirão os ônibus com os vômitos e galhofas dos foliões, por favor não se preocupem. Vocês poderão botar a cabeça para fora da janela e ainda gritar a plenos pulmões:
- É CAR-NA-VAAAAAAAALLLLL!





Pontos muito bem colocados, como sempre um ótimo escritor!
Texto tá maravilhoso Alfredo!
Adoro quando você usar sua magia nós textos.
É impossível que haja alguma discrepância para com esse texto, impecável.
É indescritível prazer perceber em um texto literário os discursos em movimento, a identidade de um povo, até mesmo quando ele nos revela a decadência da sociedade. Aquilo que sentíamos a presença e não conseguíamos descrever nem enxergar com os sentidos, agora nu à nossa frente. E ao mesmo tempo que revela, o texto nos dá, senão uma cura, pelo menos um alívio para os nossos tormentos através do riso, na acidez do sarcasmo. Parabéns Professor Alfredo.
Perfeito!
Faltam palavras para elogiar uma reflexão tão profunda e corajosa. Algumas pouquíssimas pessoas que conheço até discordaram da realização do Carnatal, mas disseram isso com muito receio, pedindo perdão e se explicando muito para não enfurecer os foliões.
É um ato de bravura expor sua inteligência dessa forma, Professor Alfredo, é, antes de tudo, um ato de resistência diante do contexto atual que vivemos no qual a plebe, realmente, pensa fazer parte da elite. A "senzala" fortalece a "Casa Grande".
Dá gosto ler um texto deste naipe. Traz esperança saber que, em meio a tanta futilidade e tanto vazio, existem pessoas que têm essência e sabedoria e, repito, coragem!
PS: Enquanto professor de Língua Portuguesa, preciso citar a perfeição,…