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FILOSOFIA, SOFISTAS E CLOROQUINA

  • Foto do escritor: Geraldo Freire
    Geraldo Freire
  • 9 de abr. de 2020
  • 6 min de leitura

Atualizado: 29 de set. de 2021

A verdade, ou o entendimento sobre a verdade, opera em dois níveis no ser humano, são dois caminhos. Somos capazes de “pensar” a verdade: eis o nível lógico, racional (conceitual), epistemológico da verdade. Esta verdade não é um fim em si mesmo, é sempre um meio para se alcançar alguma coisa, como o acúmulo de conhecimentos e a vida útil. Kant nos diz: “não se ensina filosofia, mas a filosofar”; ainda assim, apesar do esforço, ilusoriamente às vezes a buscamos como um fim. Mas também somos capazes de “acreditar” na verdade: eis seu nível ético, histórico e ideológico. Essa é a verdade que nos alcança, nos busca, nos fala, possui mil embalagens, sempre está aí. Não é necessário muito esforço para apenas dizer “eu creio”, sou teu servo, teu seguidor. Esta verdade, ao contrário da outra, é sim um fim em si mesmo, ela é “a” verdade, mesmo que por certo tempo. Ela pode ser a paz, mas também pode ser a guerra. Ela pode ser o conforto, a salvação, o equilíbrio, mas também seu cárcere, a alienação, o caos.

No caminho da vida de um indivíduo estas duas verdades tendem a se cruzar, e, muitas vezes, a se contradizer, porém isso tudo se opera num nível subjetivo, ou seja, dentro da cabeça de cada pessoa, não na realidade. Mas independentemente de qual caminho o sujeito escolha, ele notará que crer é sempre mais fácil que pensar. O caminho da verdade lógica é espinhoso e não promete nada, nem prazer nem gozo, afinal, como já dito, ela é utilizável mas não é alcançável. O caminho da verdade ideológica é acolhedor, cria laços, gera identificações, promete tudo e tem versões para todos os gostos e tamanhos.

A verdade da Filosofia (e da Ciência) é do tipo verdade pensada, uma verdade com critérios (racionais), pela qual as pessoas disputam, discutem por séculos, porém uma hora elas se ajustam à realidade, criam pontes coerentes e instrumentos técnicos para enxergá-la mais de perto. A verdade da crença é variável, possui múltiplos objetos e tenta adequar a realidade à sua visão. A Filosofia (e a Ciência), em algum grau, deve nos orientar pela verdade, e não para a verdade. A perseverança é um atributo científico, e mais que bem vindo, contudo a compulsão consciente ao erro, para si próprio e para os outros, é um desvio de caráter. Repetir mil vezes, deliberadamente, o que é falso até que pareça verdadeiro é um exemplo disso.

O que pensar daqueles para quem a verdade não é um critério, nem meio nem fim, e sim uma direção do pêndulo? O que pensar daqueles que nem se quer acreditam nela , afinal, tudo é relativo e defensável? Sócrates, da raça dos filósofos, o pai do pensamento absoluto, da coisa em si, bateu cabeça com a tribo dos sofistas, e este era justamente um dos principais problemas: para os sofistas a verdade não existe como critério racional ou como critério algum. Para os sofistas, de fato, a verdade poderia ser qualquer coisa, e uma coisa que pode ser qualquer coisa simplesmente é nada. Para os sofistas a verdade é convencimento, persuasão, ou é relativa ou é nada. E uma verdade relativa, repito, simplesmente não é uma verdade. A graça não é estar correto, preciso, e sim seduzir. Não importa a fome e o gosto da presa, e sim o ato de caçar. Posso te convencer de que a terra é redonda (geoide, para ser mais exato), mas também posso te convencer que ela é plana (discoidal, para ser mais apropriado). Mas ela ou é redonda, ou é plana, ou possui uma forma geométrica outra qualquer, ela só não é, meramente, o que eu acreditar que ela seja. Mas, para os sofistas, não importa a realidade, importa o que podemos exortar. Se a maioria “achar” que é, então é, por enquanto. Não importa até que pessoas já viram a terra de fora dela e atestam que é redonda, e azul. Fotografaram, filmaram, ensinam-se isso nas escolas... Não importa, para a raça dos sofistas isso será sempre uma outra ideologia, e não um dado observável da realidade. Quando os fatos não concordam com eles deve ser teoria da conspiração em plena atividade.

Para os sofistas, o homem em si, sua vontade, sua fé, é o juiz do mundo, e não a sua razão. “O homem é a medida de todas as coisas, das coisas que são, enquanto são, das coisas que não são, enquanto não são”, disse o sofista Protágoras . E o que isso quer dizer? Nada. Mas impressiona, não? Para aqueles, simplesmente não há uma razão, uma unidade, uma universalidade, um absoluto. Universalidade, aliás, rima com autoridade, e os sofistas tinham pavor de autoridades, de critérios, tudo pode ser mudado a qualquer momento, basta convencer aos outros. Eles requerem uma liberdade anárquica. Eles reivindicam sempre o direito de dizer qualquer coisa, inclusive o que não faz sentido. É na baderna e na desordem que eles reinam. Sua tática é confundir os que já são ou estão confusos, ou os que não possuem nada na cabeça, afinal, estar confuso é indicativo de que você está do lado certo. O que dizer daqueles que não precisam de verdades, precisam de plateia? Eles não vendiam soluções, argumentos, vendiam agitação, tumulto, encantamento do público. Sim, há muitos séculos já existiam aqueles que davam cursos, pagos (mas presenciais), prometendo ensinar a arte de “ganhar um debate sem precisar ter razão”. Sim, muitos dos seus discípulos passaram a ter influência política na antiga Atenas do período democrático. Sim, de tanto persuadir, de tanto tentar, chegaram lá. A tribo dos sofistas sempre atraíram aqueles que se achavam pequenos, comuns, invisíveis, incompreendidos, humilhados, sem voz, mas queriam brigar, aparecer, brilhar, e agora encontraram companheiros, sócios, para o mesmo clube que falam junto a ele e falam por ele. Se a comunidade científica afirma algo, eles são contra. Quem tem razão é sempre um infeliz e perturbado qualquer, sem talento e sem reconhecimento algum: eis a sua “autoridade”. A unanimidade só é critério válido se me for favorável. A maioria só conta quando estiver em minha defesa, do contrário, todos estarão sempre, previamente, errados.

Os sofistas formaram um movimento político? Ora, a política é um princípio de organização social, e eles apostavam no caos. Eram tutores que ensinavam a ganhar uma disputa, convencer espectadores. Mas e se perder? Finja que ganhou, dá no mesmo. Não importa se a cloroquina passou por testes com todo o rigor científico, o que importa é convencer as pessoas, um bando, de que ela funciona, de que ela irá nos redimir. Não é química, biologia, medicina, economia, é discurso, panaceia. Este lugar já foi do nióbio, do grafeno, do combate à corrupção etc. E se o remédio for pouco eficaz, ou nada eficaz, se fizer mais mal que bem? E se matar alguém, se isso não der certo? Ora, pior para a realidade, quem mandou não concordar com a nossa tribo? Mas, no fundo, no fundo, não importa, nada é verdade, a cura é relativa, casual (e não causal), questão de gosto.

Contudo, em algum momento, alguns cansam de verborragia, de bacharelice tola, de encenação “política”, e percebem finamente que o menor trajeto entre dois pontos é mesmo uma reta, você crendo ou não. Percebem que confundir é a artimanha de quem não possui argumentos. Percebem que a competência é meritosa, e passa longe da democracia. Percebem que clamor e gritaria assustam, mas não movem um grão de areia. Percebem que no fundo, no fundo, aquela raça nunca foi uma maioria, nem se quer foram tantos assim, são apenas uns poucos que fazem muito barulho. Percebem, afinal, que de quando em quando aparece uma cloroquina qualquer para tentar curar o que não tem cura.


*Os sofistas da antiguidade, como Protágoras, Hípias, Górgias, Pródico, apesar dos pesares, nos deixou estudos sistemáticos sobre a gramática, a retórica, a oratória, o conhecimento enciclopédico e a importância da liberdade de expressão. Os sofistas de hoje, duvidam da ciência, só falam por adjetivos, apoiam ditaduras, destroem as bases da democracia moderna e não oferecem nada de melhor em troca. Sua arma não é a fala, é o som, em especial o grito, nunca o argumento. Não os respondam, não deixe que eles pautem as discussões. Devolvam-os ao vácuo de onde nunca deveriam ter saído.

 
 
 

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