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DOMINICANOS: INQUISIÇÃO E DITADURA, IRONIA E HISTÓRIA NO BRASIL

  • Foto do escritor: Geraldo Freire
    Geraldo Freire
  • 22 de mar. de 2020
  • 6 min de leitura

Atualizado: 24 de mar. de 2020

*Esta resenha foi publicada na minha linha do tempo do Facebook em 25 de outubro de 2011. O meu perfil do Facebook não existe mais (assim espero).


Batismo de Sangue é um filme dirigido por Helvécio Ratton, baseado no livro homônimo do Frei Beto (prêmio Jabuti de 1985) o qual descreve os bastidores do regime militar no Brasil. O filme narra a participação de frades dominicanos na resistência à ditadura e que se envolveram com o líder revolucionário Carlos Marighella, executado a tiros pelo truculento delegado Sérgio Paranhos Fleury, um dos cabeças das forças da repressão, além das torturas sofridas por Frei Tito, pelo próprio Frei Beto, dentre outros. É um filme espetacular e indispensável para quem quer conhecer um pouco desse insólito capítulo da história do nosso país. Grande destaque para o realismo impresso nele, um grande trabalho de reconstituição de época. Destaque também para os diálogos e para o impressionante trabalho de fotografia. O filme se inicia com cores fortes, que vão sumindo à medida que as sombras se impõem, chegando quase ao preto-e-branco (atinem-se para esse detalhe) no ápice do sofrimento dos frades, prevalecendo apenas o vermelho, simbolizando o sangue. Então as cores voltam gradualmente à medida que suas vidas recobram a “normalidade” dentro das prisões.

Afora todo seu valor artístico e histórico, esse filme abre um espaço para tecermos uma contraposição teórica que pode se revelar muito interessante. Trata-se do tema da perseguição, da tortura, da ditadura e da justiça. O filme nos traz um fato em geral pouco sabido, a participação direta de frades na resistência contra a ditadura. Trata-se de frades dominicanos, e eis onde reside a primeira grande ironia. A Ordem dos Frades Dominicanos, conhecida historicamente como a Ordem dos Pregadores (Ordo Prædicatorum), é uma ordem cristã fundada pelo sacerdote castelhano São Domingos de Gusmão e aprovada pelo papa Honório III, em 1216. Seu nome vem do latim “Domini canis”, “cães do senhor”. E como idealizaram uma instituição cristã mais consistente, mais centralizada e rígida quanto ao conhecimento e ao saber católico no medievo, acabaram por dirigir o Tribunal do Santo Ofício, ou a Santa Inquisição, a multissecular entidade religiosa encarregada de assassinar ideias e pessoas com o pretexto de liquidar heresias, ou seja, os pecados e os pecadores que se desviaram do caminho da verdadeira fé. Entre seus membros mais importantes dessa ordem cito Alberto Magno e seu discípulo Santo Tomás de Aquino, e entre as suas vítimas mais célebres estão Galileu Galilei e Giordano Bruno (este de fato morto na fogueira em 17 de fevereiro de 1600). O ponto de ironia é que, por muitos séculos, na Europa, milhares de pessoas foram torturadas e mortas justamente a mando dessa ordem cristã, que com o passar dos anos desenvolveram métodos, técnicas e aparelhos de torturas cada vez mais sofisticados e cruéis. Em seu livro “Vigiar e Punir”, Michel Foucault dedicou muitas páginas descrevendo e analisando minuciosamente sobre aqueles métodos empregados pela Inquisição. Como verdadeiros “cães”, os dominicanos defendiam o terreno da verdade católica, caçando e queimando os tais hereges e infiéis. Eis a segunda grande ironia. Reza a lenda que a mãe de São Domingos, Dona Joana de Aza quando grávida dele, certa vez sonhou que dava a luz a um cachorro “branco e preto” que segurava na boca uma tocha, com a qual ia incendiando o mundo por onde passava. Preocupada com o tal sonho, foi visitar o mosteiro de São Domingos de Silos e pediu ao monge que fizesse a interpretação daquele sonho. Na intimidade de sua oração, ouviu a seguinte resposta: “Seu filho será um fervoroso pregador do Evangelho e com sua palavra atrairá muitos à conversão e alertará os pastores da Igreja contra seus inimigos” (fonte: o livro "São Domingos", de Simon Tugwell). Por esta razão, escultores e pintores representam São Domingos de Gusmão quase sempre acompanhado de um cão com uma tocha na boca, a exemplo do quadro do pintor realista espanhol Claudio Coello em homenagem àquele. Pelas patas daqueles cães ferozes muitas pessoas foram torturadas e mortas, e a tocha na boca do cachorro queimou vivos muitos inocentes nas fogueiras da Inquisição. Eis que muitos séculos depois, no Brasil (Deus é brasileiro...), frades da mesma ordem foram torturados justamente pelos mesmos métodos que ajudaram a desenvolver.

Entre as décadas de 60 e 80 do século passado, a América do sul foi varrida por uma onda de golpes militares. Vários países tiveram as suas democracias derrubadas por governos ditatoriais militares com a mesma desculpa de “salvar seus países da desordem e da ameaça comunista”. Países como o Chile, a Argentina e o Paraguai sofreram o terror da perda de seus principais direitos civis e principalmente a derrocada das vidas de muitas pessoas que ousaram contestar e lutar contra. Além da supressão da liberdade de expressão, muitos cidadãos, jovens em sua maioria, foram perseguidos, presos, exilados, torturados, assassinados ou simplesmente nunca mais deram notícia. Muitos deles tiveram seus corpos desaparecidos por muitos anos, e muitos, até hoje, sendo negado o direito de suas famílias enterrarem seus entes queridos. Tudo o que possa ser dito sobre aqueles países se aplica ao nosso, porém com uma grande diferença: a saída dos militares do poder não foi uma conquista do povo, foi uma negociação, imposta pelos próprios militares. As condições de sua saída seriam que o processo de redemocratização fosse feito de forma gradual, e que, pasmem, a anistia, a Lei da Anistia (Lei nº 6.683/79), promulgada pelo então presidente militar João Batista Figueiredo, em 1979, deveria ser de “mão dupla”, ou seja, tanto os presos, os exilados e os torturados políticos, quanto os militares e os torturadores, deveriam ter os mesmos direitos de não mais serem importunados. Os carrascos deveriam ter os mesmo direitos que as vítimas. Outro fato também marca a diferença entre o processo de redemocratização no Brasil com relação aos nossos países vizinhos: aqui, aquelas condições impostas pelos militares foram levadas à risca, e nenhum, eu repito, “nenhum” militar ou torturador foi condenado até hoje. E pior, o povo brasileiro não tem o direito de ter acesso aos principais arquivos oficiais daquele tenebroso período. História negada é justiça negada. Até porque muito do que chamamos de “arquivos oficiais” simplesmente foram guardados nas casas de generais e de agentes do então regime. Em países como o Chile e a Argentina muitos criminosos do período ditatorial foram julgados e condenados, os governos seguintes preocuparam-se em dar uma elucidação oficial possível sobre aquele nefasto período. Muito diferente do que ocorre no nosso país, que com a desculpa de “não provocar uma onda de ódio no Brasil” não desenterram esse capítulo maldito. Uma decisão que, até hoje, beneficia somente àqueles que participaram de atos bárbaros e covardes, pois muitos deles, muitos mesmo, estão ainda vivos e levam uma tranquila vida de cidadão de bem, e provavelmente ainda recebem salários do governo (torturadores aposentados). Partidos que surgiram e se organizaram sob a égide da ditadura, como o PT e o PC do B, e até pessoas como o ex-ministro e petista José Dirceu e a nossa atual presidenta Dilma Rousseff, que foram vítimas diretas da tortura e da repressão do período militar, nunca se esforçaram pessoalmente para dar uma satisfação oficial sobre o período, valendo-se de um discurso político eleitoreiro estúpido de que “não guardam mágoas em seus corações”. Será que de repente viraram “frades dominicanos”? Mas da qual espécie, dos antigos ou dos atuais? Eles possuem o “direito” moral de perdoarem a quem bem quiserem, mas o que dizer aos pais e aos cônjuges que nunca mais tiveram notícias de seus filhos, filhas, maridos, esposas, enfim, familiares em geral? O que dizer às Zuzu Angel’s da vida? O que dizer às pessoas que ficaram atormentadas e com danos psíquicos irreversíveis? O que dizer sobre o atraso econômico e cultural a que ficamos submetidos, dos quais ainda sofremos sérias consequências históricas? O que fazer com a impunidade cultural que ainda paira no ar? A barbárie, aqui, parece ter compensado. Uma verdade encoberta nega às gerações futuras o conhecimento de seu passado histórico, seu desnudamento pode, talvez, evitar que ele se repita. Livros e filmes, como esse do Helvécio Ratton, é uma pequena peça do grande quebra cabeça da história brasileira, que nos ajudam a conhecer um pouco desse passado recente e auxiliam para que mantenhamos nosso senso crítico em alerta.


* Observação atual (22/03/2020): este texto foi publicado sete dias após a publicação da Lei 12.528 (de 18 de novembro de 2011), que instaurou “A Comissão Nacional da Verdade” (http://cnv.memoriasreveladas.gov.br/), porém só tomei conhecimento do fato depois do texto já publicado. Nunca foi intenção da “Comissão” julgar e prender ninguém, contudo observamos que seis anos após a conclusão dos trabalhos a Comissão não causou, ainda, nenhuma repercussão histórica nacional de relevância. Ao contrário, no atual momento assistimos a cidadãos brasileiros, e não poucos, conclamando a uma volta da ditadura militar. Algo deu errado. Os fatos recentes demonstram que justamente a desculpa populista de “não provocar uma onda de ódio no Brasil”, gerou exatamente “uma onda de ódio no Brasil”. O medo da regressão causou a própria regressão. Em 2018 o Brasil elegeu um presidente que não somente chama o “golpe militar de 1964” de “Revolução de 64” como declara que seu livro de cabeceira é “A Verdade Sufocada”, de Carlos Alberto Brilhante Ustra (codinome Dr. Tibiriçá), um dos maiores carrascos do período militar no Brasil. Algo realmente deu errado.



 
 
 

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