top of page

AS POBRES DEUSAS DA UCRÂNIA E AS PRETAS POBRES DO MUNDO

  • Foto do escritor: Geraldo Freire
    Geraldo Freire
  • 6 de mar. de 2022
  • 5 min de leitura

Atualizado: 12 de mar. de 2022

Em 1941, durante o desenrolar da 2º Grande Guerra Mundial, a Alemanha nazista resolve invadir a União Soviética (URSS), a partir de um projeto denominado “Operação Barbarossa”. Os planos nazistas incluíam usar os povos eslavos como força de trabalho escravo e se aproveitar das reservas de petróleo e dos recursos agrícolas de alguns territórios soviéticos, sendo o principal deles... adivinhem... a Ucrânia, que era uma das principais portas de entrada para a então URSS. Foi uma das maiores forças invasivas da história das guerras no mundo, e justamente pela sua localização geográfica a Ucrânia foi a região que mais sofreu com a ocupação. Diversas cidades e vilarejos foram totalmente devastados, milhares de pessoas, indiscriminadamente, foram mortas pelo caminho e outros milhares foram feitos prisioneiros. As mulheres, como sempre acontece na história, foram estupradas aos milhares e feitas de escravas sexuais. Dois anos depois, após muitas batalhas sangrentas, a União Soviética parte para a sua contraofensiva e invade a Alemanha. Mais mortes, mais destruição, e, claro, mais mulheres estupradas do lado alemão, e desta feita com a convicção aterrorizante dos soviéticos de que, acima de tudo, exerciam um direito de guerra.

A guerra possui a capacidade de, potencialmente, destruir a todos, mas destrói de formas diferentes. Entre a luta pela sobrevivência e a aniquilação total existe um repertório de horrores possíveis: o desespero, a angústia, a loucura, a fome, a humilhação, a tortura, a escravização e a violação sexual dos corpos. A guerra é passível de vitimar mais as crianças e os idosos pelas suas condições de dependência e fragilidade inerentes a eles. Afeta mais aos pobres por não possuírem recursos para se manterem, se esconderem ou fugir – os ricos fogem em aviões ou iates particulares, e podem subornar guardas para escaparem. Afeta mais aos negros por terem historicamente a sua dignidade ignorada no mundo, mesmo em lugares em que são maioria. E afeta mais as mulheres pela forma como foram subordinadas sexualmente desde sempre, o estupro e a escravização sexual é uma ameaça permanente, e a escravização para trabalho também. A guerra realmente não possui gênero, etnia ou classe social específicos, mas as suas vítimas preferenciais sim. Pelas leis da física, bombas podem ser arremessadas para qualquer lugar, mas pelas leis humanas elas caem sempre nos mesmos lugares e nas mesmas cabeças. Há bem pouco tempo, década de 90, ocorreu um genocídio em Ruanda, África central, no qual mais de 800 mil pessoas foram mortas. Sabiam disso? Provavelmente não, pois trata-se de um massacre que devastou pretos miseráveis, em sua maioria crianças, idosos e mulheres, e o mundo, e sua mídia internacional, não costuma se chocar tanto com aqueles povos. Não geram tantas notícias, e, diríamos hoje, não geram tanto “engajamento”.

A política e as relações de poder, de forma geral, sempre possuíram uma relação muito intrínseca com o sadismo, é um dos caminhos para se exercer o sadismo, como já denotava o próprio Marquês de Sade (sim, o termo "sadismo" e "sádico" existe em referência a ele mesmo). O sadismo sempre se realiza sobre um sujeito, feito objeto, que é considerado, ao menos imaginariamente, inferior. É preciso surpreender o outro em sua condição de inferioridade. O que explicaria o fato de alguém, ao observar uma fila de refugiados de guerra, chamar-lhe mais a atenção os traços corporais das mulheres e o quanto elas seriam, segundo ele, “fáceis”: “... e eu nem peguei ninguém aqui, eu não peguei ninguém aqui, mas só a sensação de saber que eu poderia fazer e sentir como alguém... enfim... já sabem, né?”. Percebem o orgulho sádico em suas palavras? E como a natureza do sadismo é ambivalente, logo também eclode o masoquismo manifesto: “... se ela cagasse cê limpa o * com a língua...”.

Mesmo em tempos de redes sociais é possível que muitas pessoas não saibam quem é o Arthur do Val, o tal “Mamãe Falei”, mas ele já era uma figura carimbada na exortação da miséria da política brasileira, que apareceu e se elegeu político na esteira de vários outros que se promoveram à base de “lacrações” nas redes sociais. Sua origem é o MBL, o mesmo “movimento político” que faz parte um certo rapaz que um dia desses defendeu o direito dos nazistas poderem se manifestar livremente. Seu partido é o PP, o qual Sérgio Moro se filiou recentemente. O Arthur do Val se elegeu por São Paulo como o 2º deputado estadual mais votado no último pleito (2018), recebeu 478.280 votos, perdendo apenas para Janaina Paschoal, quem obteve 2.060.786 votos. Percebem o tamanho do buraco em que o Brasil está metido? O “Mamãe Falei” representa alguém, e representa muita gente. Ele é a legítima tradução de certos valores e ideologias da classe média brasileira. Aquela que flerta com protoditadores, aquela que reproduz discursos racistas e misóginos, e, principalmente, aquela que possui pavor a pobre. Aliás, talvez não a todos, pobres loiras do leste europeu até toleram. É a mesma classe média que de vez em quando queima mendigos na rua, ou atacam indivíduos que ajudam pessoas em situação de rua, como o padre Júlio Lancellotti, acusando-o de ser “cafetão da miséria”. O Arthur do Val é um fidedigno representante daqueles que não cansam de repetir que: “as mulheres querem direitos iguais, mas são os homens vão às guerras”; mas são minimamente incapazes de raciocinar que são os próprios homens que causam as guerras, e as mulheres, de várias formas, são vítimas dela, quando não perdem a sua dignidade perdem a vida. É a mesma classe média que se esconde sob às vestes de um ódio ao pobre disfarçado de liberalismo obsoleto, e um ódio ao feminino disfarçado de fanatismo moral cristão.

Não deixa de ser bastante irônico testemunhar um personagem como o Arthur do Val ser vítima exatamente da mesma armadilha que o alavancou na vida pública: as mídias sociais. A sua única motivação em ir à Ucrânia nada mais era que se manter em evidência nas redes, causando aquele impacto psicológico em mentes medíocres que certamente pensariam: “olha lá, esta é uma pessoa que não somente fala, ele vai lá e faz”. Mas foi exatamente falando que ele se revelou. A publicização de uma conversa “privada”, áudios que somados dão menos de 4 minutos, disseram mais sobre ele e seus eleitores do que todos os seus discursos na tribuna da câmara de deputados do estado de São Paulo. O meio que o alavancou foi exatamente o mesmo que, ao menos por enquanto, o detonou. Foi capturado pelo próprio engodo. Em sua fala ele coloca suas cartas na mesa, sua “carta do Instagram, cheio de inscritos”, eis as suas credenciais, eis a sua essência. Não é o seu caráter, não é seu senso humanitário em local de guerra, mas seu número de seguidores. O Arthur estendeu o braço, não para ajudar, mas para mostrar em seu smartphone quantos seguidores ele possui para moças loiras e lindas. Nem a condição de político brasileiro bem votado importava. Mamãe Falou, e denotou precisamente qual é o valor de uma vida em condição de guerra para ele: a promoção política e o proveito sexual. E se os dois acontecerem ao mesmo tempo, melhor ainda. Ele manifesta a sua fraqueza de espírito, chama a atenção de mulheres, segundo ele, mas de mulheres em condições de desespero. São tão lindas, loiras, deusas, não mereciam morrer. Não mereciam morrer, porque são loiras, lindas, deusas. E se não fossem, mereciam morrer? E as mulheres pretas e miseráveis de Ruanda? E as mulheres pretas e pobres do Brasil? Algo próximo ao: “Não te estupro porque você não merece”; “Não te estupro porque você é feia”. Qual mulher merece? Ele deixa uma promessa: “... assim que essa guerra acabar eu vou voltar para cá...”, para a Ucrânia destruída. Quem sabe as mulheres estejam mais pobres, logo mais fáceis, não é do Val? Quem sabe elas nem estejam vivas. Quem agora, de fato, é o “cafetão da miséria”?


 
 
 

Comentários


Post: Blog2_Post

Formulário de Inscrição

Obrigado pelo envio!

84998497000

  • Facebook
  • Twitter
  • LinkedIn
  • YouTube

©2020 por thaumablog. Orgulhosamente criado com Wix.com

bottom of page