AMOR, ÓDIO, CIÊNCIA E MENSTRUAÇÃO
- Geraldo Freire
- 7 de set. de 2020
- 7 min de leitura
Atualizado: 8 de set. de 2020
Quando uma Mulher tiver fluxo de sangue que sai do corpo, a impureza da sua menstruação durará sete dias, e quem nela tocar ficará impuro até a tarde, tudo sobre o que ela se deitar durante a sua menstruação ficará impuro, e tudo sobre o que ela se sentar ficará impuro. (Bíblia de Jerusalém, Novo Testamento, Levítico 15:19-20)
O amor é paciente, o amor é bondoso. Não inveja, não se vangloria, não se orgulha. Não maltrata, não procura seus interesses, não se ira facilmente, não guarda rancor. O amor não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade. Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. (Bíblia de Jerusalém, Novo Testamento, 1 Coríntios 13:4-7)
Tudo o que escrevi aqui neste texto me veio após assistir ao filme indiano Pad Man (Netflix).
Semana passada eu e a minha esposa conversávamos sobre vários temas, até que a misteriosa cadeia de assuntos chegou ao ponto “menstruação”. Relembramos como, quando éramos criança, presenciamos vários episódios de tabus com relação à menstruação. Toda avó e toda mãe possuía uma lista de alimentos e de práticas proibidas às mulheres em seu período menstrual, e eram listas tão extensas quanto, hoje, bizarras. Lavar os cabelos, andar descalça, andar de bicicleta, não cozinhar para não "desandar" a comida, comer abacaxi, goiaba, alguns tipos de carnes e diversas outras comidas. De lá para cá muita coisa mudou, por aqui, ao menos, a maioria daqueles tabus não são mais dominantes, mas alguns ainda se conservaram, ainda que em outros formatos e empurrados para outros terrenos, porque a sua matriz não parece ter sido superada: a crença. Me recordo em ter dito que eu tenho uma teoria sobre a origem do tabu da menstruação. O homem pré-histórico, talvez o homo erectus ou o homo habilis, era ainda muito vulnerável frente aos perigos da natureza, uma mulher menstruada, na era pré-histórica, poderia por um grupo humano inteiro a perder. Como? Simplesmente porque o cheiro do sangue poderia atrair predadores, animais ferozes, ou até mesmo homens de grupos rivais, por isso a mulher deveria, durante o período menstrual, ficar resguardada. Era uma questão estratégica apenas, de sobrevivência, não uma questão moral, ou sagrada. Muitos milhares de anos depois, não vivemos, em maioria, mais da caça, não somos mais nômades, nem vivemos mais em cavernas, não somos mais tão suscetíveis aos perigos da natureza. Uma vez superado o problema deveria ter sido superada a solução. Como explicar, então, que existam preconceitos e tabus com relação a menstruação ainda nos dias de hoje? Ora, o ser humano é assim, quando não encontra uma explicação ou justificativa visíveis, ele credita ao sobrenatural. Freud diria: heranças mentais arcaicas, heranças psíquicas filogenéticas. O pavor em ser devorado por animais selvagens desapareceu e deu lugar ao pavor à menstruação. Quantas mulheres já não foram acusadas de terem estragado plantações inteiras? Quantas já não foram responsabilizadas pela morte repentina de animais domésticos e de animais da criação? Incriminadas por bebidas e comidas que estragavam, tudo isso pelo simples toque de uma mulher menstruada. E assim o tabu da menstruação foi sendo alimentado, renovado e consagrado por séculos, em sua maioria em nome de uma crença ou de uma religião. Por muitos séculos, cultura e religião são confundidas.

Eis que hoje me deparei com um filme maravilhoso, baseado em fatos reais, chamado Pad Man. Este filme, além de me proporcionar uma reflexão, me causou grande comoção. O filme retrata a história de vida de Arunachalam Muruganantham (Lakhsimi), um homem indiano que transformou o amor por sua esposa em amor pelas mulheres do mundo, logo em amor pela humanidade. Este filme indiano denuncia que apenas 12% das mulheres da Índia usam absorventes descartáveis. Qual a causa? Tabus religiosos e condições socioeconômicas, um pacote de absorvente naquele país é algo extremamente caro. Lembremos que a Índia possui em torno de 1,4 bilhões de pessoas, se a metade for mulher significa que 616 milhões de mulheres não usam absorventes descartáveis, isso é quase o triplo de toda a população brasileira. O que usam? Panos, que não são descartados. E quais as consequências disso? O estúpido números de mortes de mulheres por falta de higiene íntima e falta de acesso médico por vergonha ou aconselhamento religioso. A primeira forma de sujeição social das mulheres começa pelo trato social que é dado ao seu corpo, a mulher é rebaixada real e simbolicamente. O primeiro tabu começa pela linguagem, eufemismos são usados para se referir à fisiologia feminina, dentre eles à menstruação, não se fala diretamente o nome da coisa, como se fosse uma doença, uma maldição, um insulto ou algo tóxico. A pedagogia milenar sobre o corpo da mulher é uma pedagogia da vergonha, da impureza e das proibições. A menina é ensinada a achar a vagina feia e em desvantagem em comparação ao pênis. O clitóris foi simplesmente banido dos livros de anatomia médica por séculos, e até hoje as referências são mais à sua parte externa, ocultando o conhecimento à parte interna do órgão por não ter relação direta com o aparelho reprodutor. A menstruação foi, no ocidente e no oriente, por séculos, vista como um impeditivo da vida da mulher, algo impuro e digno de vergonha, e até hoje há quem queira tratar assuntos médicos com princípios alegóricos ou espirituais. É um pensamento obsoleto afirmar que tudo o que o corpo coloca para fora é algo impuro, isso não é uma regra biológica, é uma crença. "Pureza" não deveria mais fazer parte do vocabulário médico, é um conceito subjetivo, não clínico. O funcionamento do nosso corpo não é moral, é biológico, somente nossas mentes e nossas vontades atendem a preceitos morais, ao corpo restam o cárcere ou a liberdade para se desenvolver.

O que o personagem principal do filme fez? Inventou uma máquina barata de fazer absorventes a baixo custo. A princípio enfrentou duas barreiras quase intransponíveis, convencer as mulheres a usarem e convencê-las a comprar. Foi aí que, com alguma ajuda, ele se tocou que poderia não somente ajudar a saúde das mulheres indianas, mas também alterar suas vidas financeiras, elas mesmas passaram a produzir e vender os absorventes. Como o próprio personagem disse: “matou dois coelhos....”, saúde e economia. Eu diria três. Sem querer ele também tocou na questão religiosa. O personagem passa a mensagem de que a religião não pode e não deve causar mal as pessoas. As religiões só existem porque existem pessoas, povos vivos no mundo. Do que adiantaria um mundo cheio de deuses e vazio de gente? Se um mandamento religioso vai de contra a vida, podem acreditar, ele não foi anunciado por Deus. Se um mandamento ordena que você mate, morra, odeie, cause mal ao outro, acreditem, ele não foi anunciado por Deus. Me arrisco a dizer que 90% dos cristãos não entenderam até hoje a mensagem de Jesus Cristo. Não entenderam que a sua palavra é um louvor à paz, à tolerância, ao bem ao outro, enfim, ao amor ao próximo. Mais de dois mil anos depois e tudo terminou em mera liturgia, cerimônia, culto, ritual, institucionalização, o que já existia antes dele, amar mesmo continua um tabu. O amor ao próximo é algo tão difícil ao ser humano que até Deus sabe disso, e teve que vir pessoalmente ao mundo para nos dizer. Deus é amor, o resto é gritaria sem sentido. “Quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor” (1 João 4:8). Se não és capaz de amar ao outro, ao menos não o odeie, deixe que ele seja livre. Se não és capaz de amar um preto como um igual, um gay como um igual, um pobre como um igual, ao menos os deixem em paz, e ainda assim Deus te amará.

Sim, vivenciamos hoje uma pandemia de ódio, um flagelo mundial da naturalização da violência, da subjugação, da disseminação de preconceitos, e o pano de fundo de tudo isso, muitas vezes, infelizmente, é uma defesa inescrupulosa da religião. É fácil amar na bonança, ser calmo e bom quando tudo vai bem. O problema é quando a situação se torna difícil, quando as crises advêm. Os apontadores de causas alvejam logo os culpados e as soluções, disseminam cisões, alimentam as contradições e os conflitos. Isso sim é uma prova de fogo, não só para o amor, mas para praticamente todos os sentimentos humanos. As pessoas só podem oferecer o que possuem, algumas só podem oferecer intrigas, conflagrações, discórdia, ódio. O ódio pode sim ser provocado de fora, mas você só será instigado se tiver ele dentro de você. O mesmo digo do amor, só pode oferecer amor quem tem amor para dar. Algumas pessoas só provocam o ódio, outras só provocam o amor, e outras ficam no meio, vazias, alheias a quem chegar primeiro, ou quem prometer mais. O mal tem muitas justificativas, o bem só tem uma, eis a armadilha na qual as vezes caímos. Já perceberam que os que são contra o aborto, em sua maioria, o faz em nome de uma religião? Quem é contra o uso de preservativos e contraceptivos, em sua maioria, o faz em nome de Deus. Quem condena a homossexualidade, em sua maioria, o faz em nome do sagrado. Não possuem coragem de assumir suas próprias convicções, escondem-se atrás de uma religião ou de uma outra instituição qualquer. Ironicamente, escondem-se atrás da palavra de Deus, as quais nunca foram ditas ou incentivadas. Deus, que deveria ser amor e palavra de amor, torna-se, para este tipo de gente, um vulcão que emana preconceitos, tabus, uma metralhadora que atira rancores, repugnâncias e ódios. A matriz que produz a crença de que a menstruação é algo sujo, impuro, vergonhoso, é a mesma que leva pessoas a usarem cloroquina, ou qualquer outra coisa receitada e aceita por meio da fé cega, ingênua, deslumbrada, mesmo que disfarçada de política.

Por incrível que pareça, não foi a consciência dos homens ou a bondade das religiões que libertou a mulher de algumas amarras sociais no ocidente, pasmem, foi o mercado. O capitalismo também ajudou a emancipar as mulheres. A indústria percebe que certos nichos de mercado esbarram na cultura, em preconceitos e preceitos religiosos. A partir do momento em que a mulher sai para trabalhar e consegue sustentar-se sozinha, por que ela deveria prestar obediência a um homem? Pensem nas roupas íntimas femininas, nos biquínis, nas maquiagens, nos anticoncepcionais, até mesmo nos absorventes. A propaganda ajudou a quebrar muitas barreiras, pois possui o poder de manipulação da imagem, transformando aquilo que hora fora sagrado naquilo que elas são realmente: necessidades comuns. O personagem do filme, Lakhsimi, que realmente existe, executou algo que eu admiro em uma espécie de cientista e inventores, colocar o bem da humanidade acima de tudo, espécie esta que não existe mais. Não buscaram dinheiro e fama, buscaram o melhoramento das vidas das pessoas. Pode parecer absurdo, mas inovação é amor. Galileu Galilei, Louis Pasteur, Marie Curie, Alexander Fleming, nenhum deles morreu rico. “Ganhar dinheiro faz um homem sorrir. O bem? Faz muitas mulheres sorrirem.”, disse Lakhsimi.






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