A SOLUÇÃO É SIMPLES: NÃO TOLERE O INTOLERANTE
- Geraldo Freire
- 11 de mar. de 2020
- 4 min de leitura
Atualizado: 9 de fev. de 2022
“Devemos-nos, então, reservar, em nome da tolerância, o direito de não tolerar o intolerante.” (Karl Popper)
É muito difícil tornar-se culto, erudito, sábio. Dá muito trabalho. E os dois lados concordam quanto a isto – os ignorantes e os ilustrados – apenas reagem de formas diferentes. Mas somente pessoas cultas e sábias sabem que problemas complexos não possuem soluções fáceis, vulgares. O discurso autoritário, intolerante, é um tipo de discurso que promete soluções fáceis para problemas ultra complexos, sejam de natureza econômica, política, científica, religiosa, cultural e outras, mas, no fundo, o autoritário sabe que não é, tão somente trabalha para que muitos acreditem nisso. Mas há limites para a tolerância, já dizia Karl Popper.
O discurso autoritário, quando o analisamos historicamente, em especial a história recente, nunca apareceu com esse nome na boca dos tiranos. O autoritário quase nunca se assume como tal, a não ser nas espreitas, a não ser com uma arma ou garantias de força bruta nas mãos. Na maior parte das vezes se assume como “nacionalista”, “patriota”, “temente a Deus”, "defensor das liberdades" e muitos outros. O léxico opressivo é bastante rico e criativo. O discurso autoritário sempre esteve e sempre está aí, ao nosso lado, sussurrando e olhando para os lados, mas, em momentos de crise ele fala alto, berra, braveja, esgoela-se, nos encara de forma intimidadora e nos mira de nariz empinando, afinal, todos estão errados e ele possui soluções para tudo. Soluções frívolas.
Não somente o discurso autoritário sempre esteve aí como ele sempre agiu, deu golpes, usurpou o poder, mas quase sempre veio de cima, de dentro do poder político mesmo. O que é novidade da nossa época, do início do século XX para cá, é que o discurso autoritário, disfarçado de populismo, de soluções superficiais, usa a democracia para alcançar o poder e depois destruir a própria democracia, por dentro. A analogia é simples, a de alguém que usa uma escada, construída por outros, para alcançar o andar de cima e quando lá chega derruba e destrói a mesma.

Em 1945, o filósofo Karl Popper laçou a obra “A Sociedade Aberta e Seus Inimigos” (The Open Society and Its Enemies), escrita durante a segunda grande guerra mundial, e é nesta obra que encontramos o celebre “paradoxo da intolerância”[1]
.Não tolere o intolerante, o autoritário, diz Popper. Este tipo de gente não é dado a argumentos racionais, ao diálogo, ao pacto, à paz. Esses discursos devem sim ser censurados, banidos, proibidos, calados, ainda que à força. O “paradoxo da tolerância” é o mesmo que o “paradoxo da democracia”, não podemos permitir que aqueles que sempre tripudiaram e escarneceram da democracia cheguem ao poder, democraticamente, para depois envenenar todo o estado democrático de direito, transformando um país numa ditadura: uma ditadura de fato, uma ditadura da ignorância, uma ditadura religiosa e uma ditadura dos ricos sobre os pobres. Começa-se com uma democracia excludente (só participam do governo e do Estado alguns poucos) e termina por excluir a própria democracia como um todo. Aqueles que permitem são todos responsáveis, principalmente aqueles que têm por ofício fazer alguma coisa nestes casos. A tolerância é uma regra inicial, sem ela não se pode entrar no debate, não se pode ter voz e ter acesso à política.

A Alemanha do pós segunda guerra, até agora, é um grande exemplo quanto a não tolerância frente à discursos autoritários e extremistas. O estado alemão, por lei, proíbe, censura, repele e pune discursos ultradireitistas, em especial discursos nazifascistas. Entretanto mesmo lá tais discursos não cessam de existir e se multiplicar. Eles não cessam de tentar, aguardando covardemente nas frestas da próxima crise.
As soluções para os problemas políticos estão dentro da política, e não fora ou acima dela, como já nos fez crer Thomas Hobbes. Destruir a política é destruir toda a possibilidade de uma convivência humana possível. Macacos, por mais bem treinados que sejam, não pilotam aviões, ainda que, democraticamente, decidamos que sim. O coitado não levanta voou, e se fosse possível derrubaria a máquina em poucos segundos sobre as cabeças de todos nós. Ignóbeis no governo é tragédia anunciada, sabemos aonde isso pode dar.
Cada um, democraticamente, possui o direito de escolher suas bestas prediletas, mas não podemos permitir que estes monstros prediletos governem todos nós. Não tolerar a intolerância é, acima de tudo, um dever moral.
[1] “A tolerância ilimitada leva ao desaparecimento da tolerância. Se estendermos a tolerância ilimitada mesmo aos intolerantes, e se não estivermos preparados para defender a sociedade tolerante do assalto da intolerância, então, os tolerantes serão destruídos e a tolerância com eles. — Nessa formulação, não insinuo, por exemplo, que devamos sempre suprimir a expressão de filosofias intolerantes; desde que possamos combatê-las com argumentos racionais e mantê-las em xeque frente a opinião pública, suprimi-las seria, certamente, imprudente. Mas devemos-nos reservar o direito de suprimi-las, se necessário, mesmo que pela força; pode ser que eles não estejam preparados para nos encontrar nos níveis dos argumentos racionais, mas comecemos por denunciar todos os argumentos; eles podem proibir seus seguidores de ouvir os argumentos racionais, porque são enganadores, e ensiná-los a responder aos argumentos com punhos e pistolas. Devemos-nos, então, reservar, em nome da tolerância, o direito de não tolerar o intolerante.” (Karl Popper em “A Sociedade Aberta e Seus Inimigos” [The Open Society and Its Enemies], Volume 1, 1945)




Texto super rico em detalhes e acida de tudo, repleto de bons argumentos convitativo a ação.
Que tempos tenebrosos são esses em que vivemos onde os ditos inteligentes ficam em silêncio para não chatear os intolerrantes, rsrsr.
Agradeço ao nobre amigo e professor, Geraldo Freire pela oportunidade de reflexão
Agradeço ao ilustre amigo pela oportunidade de beber na fonte.