A MÃO, A LUVA E O MACHADO
- Geraldo Freire
- 19 de jul. de 2022
- 5 min de leitura
Atualizado: 28 de dez. de 2023
Tenho por hábito visitar diariamente ao menos dois sites de notícias, que são sempre os mesmos, e há aproximadamente um mês que praticamente todos os dias vejo sucessivas manchetes sobre um tal de “Luva de pedreiro”. Nunca tive interesse em ler tais matérias, porque sempre imaginei que devia se tratar de mais um “youtuber” ou “influencer”, e sinceramente não me interesso por nenhum deles, por compreender que eles em nada me acrescentam. Até que hoje fui vencido pelo cansaço e resolvi fazer no Google uma busca sobre esse tal de “Luva de pedreiro”. Olhei no Wikipédia e a minha primeira surpresa é que a página sobre ele era relativamente extensa, cheia de referências e explanações. Basicamente: é um rapaz muito pobre, da Bahia, que estava jogando bola e inventou os bordões “Receba!” e “Obrigado, meu Deus”, e em seguida alguns jogadores de futebol famosos começaram a os repetir nos jogos e nas redes sociais e “viralizou”. Depois disso, ele conseguiu comprar uma mansão e está com contratos milionários com empresas que pretendem o patrocinar. Ok. Após ler a sua biografia me perguntei: o que ele faz mesmo? Qual o seu trabalho? Qual a sua arte? Querem o patrocinar para ele fazer o que mesmo? Resumo da ópera: ele não é pedreiro, não é jogador, não é artista. Até agora não é nada definível, mas ainda assim parece ser uma mina de ouro.

Tenho consciência que nestes tempos em que vivemos o ingênuo sou eu, e querer exigir qualquer comprometimento do público com a coerência e com a lógica do mundo das artes atualmente é perda de tempo. Num mundo regido por uma política cibernética, praticamente não existe mais o conceito de arte, ela na prática virou um conceito privado, foi substituída pela lamentável ideia de “conteúdo”. O que é um “conteúdo”? Conteúdo pode ser qualquer coisa, de qualquer pessoa, que o outros possam assistir, ou seja, “consumir”. Qualquer coisa mesmo! Você abre o TikTok (ou Kwai) e tem uma senhora fazendo uma cambalhota. Eis o conteúdo. Um gato miando ou um cachorro correndo. Eis o conteúdo. Uma jovem fazendo uma dancinha sensual de biquíni. Eis o conteúdo. Um rapaz aporrinhando o pai ou a mãe dele com uma brincadeira imbecil. Eis o conteúdo. Um casal simulando uma briga ensaiada e jurando ser espontânea. Eis o conteúdo. Um marido filmando as partes sexuais da esposa e fazendo uma piada idiota, como se alguém prestasse a atenção na piada. Eis o conteúdo.

No Youtube você pode encontrar de tudo, inclusive até “conteúdos” bastante instrutivos, didáticos e úteis, mas atualmente o que reina mesmo são os tais podcasts, que em sua imensa maioria explora a vida de pessoas mais comuns que eu e você. O que elas fazem da vida? Nada, apenas desenvolveram a arte de serem elas mesmas e acham isso extraordinário. Muita gente, sem perceber, se tornou viciada nas opiniões de pessoas simplórias, e no dia-a-dia de pessoas simplórias. Pessoas comuns, fazendo coisas comuns e depois narrando isso em um programa. Não se trata nem de arte ruim, ou de arte efêmera, trata-se de arte nenhuma, informação nenhuma, conhecimento nenhum. Algo que Humberto Eco nomeou de “o irrelevante da aldeia”, uma versão bem piorada do “idiota da aldeia”, pois o idiota ao menos tinha lá sua graça. Não tenho dúvidas que se trata de um “entretenimento”, a minha questão é: por que isso realmente entretém? Um fulano qualquer se deslumbra com a sua vidinha e consegue convencer milhares de pessoas, as vezes milhões, que isso é realmente interessante. Uma fulana qualquer dá uma entrevista porque tem milhares de seguidores no Instagram. O que ela faz? Nada, o mérito dela é ter milhares de pessoas no Instagram, só isso. E o que ela faz no Instagram? O que todo mundo faz, posta fotos, vídeos, faz lives... Sobre o que? Nada em específico ou especial, apenas no caso dela ela leva isso muito a sério, ao ponto de torna-lo um meio de vida. Esse é o conceito do que chamam de “influencer”. Ela possui muitos seguidores, é entrevistada para dizer que tem muitos seguidores, daí ganha mais seguidores, e por aí vai... É um sistema que se auto alimenta. E claro, algumas vezes o dinheiro brota, mas nem sempre tanto quanto eles fazem parecer.
Toda novidade (moda) é acompanhada de uma nova semântica, quando não de uma nova gramática, que introduz novos termos para induzir os falantes do presente a se sentirem mais inteligentes, elegantes e superiores que os pobres mortais do passado. E neste tempo funesto em que vivemos, a cada dia aparece um novo termo que aos poucos toma o lugar do que realmente importa, fazendo a linguagem artístico-científica parecer um totem do passado: conteúdo, seguidor, engajamento, criador de conteúdo, influenciador digital (influencer), relevância, meme, viralizar, trending topic, postar e repostar (fazer um post), hashtags, cancelar (a pessoa), fake news, shippar, stalkear, trollar, e é disso pra pior.

O campo cultural hoje, no mundo inteiro, mas ainda pior em países periféricos como o Brasil, sofre de um apagão sem precedentes, e, coincidência ou não, apressou-se mais depois da popularização da internet e das redes sociais. E isso já está causando reflexos sócio-políticos sérios e preocupantes: não é por acaso que o último presidente do país mais poderoso do mundo veio do show business, e nunca a democracia norte-americana definhou tanto quanto agora; não é coincidência que o primeiro ministro mais popular da Itália – depois de Mussolini, claro –, tenha deixado um rastro de destruição política e moral naquele país; não é contingente que o presidente de um país que está sendo destruído pela guerra tenha vindo da comédia cinematográfica; e definitivamente não é obra de Deus que o presidente atual do Brasil seja... esse que temos aí. São todos reflexos do nosso tempo, em que o populismo midiático digital se entranha em nossa vida política com a mesma facilidade com que curtimos um vídeo inocente qualquer.

Só uma última informação sobre o “Luva de pedreiro”: a página no Wikipédia sobre ele já conta com mais informações do que sobre o Paulinho da Viola. Não é ironia, é sério, pesquisem vocês mesmos. Ah, e para quem não conhece, Paulinho da Viola não produz conteúdo, produziu, e produz até hoje, ARTE, é uma das raízes viva do samba brasileiro. Se você sabe quem é “Luva de pedreiro” mas não sabe quem é Paulinho da Viola, é exatamente sobre esse vácuo que estou me reportando. Não, não se trata de choque de gerações, não se trata somente de gosto, de ignorância ou falta de acesso a bens culturais, agora trata-se mesmo de impossibilidade. Sei que não é razoável confundir formatos com conteúdos, mas por enquanto os “conteúdos” não estão à altura dos formatos. Como não prevejo o futuro, talvez o “Luva de pedreiro” e todos os outros “influencers” nos deixem um legado do qual possamos nos servir e nos orgulhar um dia, quem sabe? Conteúdo é tempo, só isso, o seu.





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