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A LISTA: O DONO DA BOCA DO TREM

  • Foto do escritor: Geraldo Freire
    Geraldo Freire
  • 15 de nov. de 2021
  • 6 min de leitura

Atualizado: 4 de jan. de 2023

O que muitos chamam de ritual eu apenas chamo de normal. O povo tem mania de dar nome esquisito e requintado ao que é simples. Todos os dias, quando acordo, passo o olho em minha lista, refaço a ordem e ligo a televisão. Gosto de ver TV pela manhã. Vejo notícias, fofocas, culinária, o que estiver passando. Tenho certeza que quando a TV sumir de vez eu estarei aqui, vendo as últimas imagens. Agora mesmo estou vendo um daqueles programas em que os apresentadores, com aquele sorriso de quem ganhou na loto, ensinam pobre a fazer móveis de casa a partir de lixo. Na casa deles só tem móveis de grife. Rico adora ensinar pobre a ser pobre, ensinar ao pobre a se virar com o que tem. E o pior, eles caem nessa. Rico sempre teve de tudo, sempre pôde comprar de tudo, mas de vez em quando, quando chega a vez do pobre, eles vêm com esse papo de reciclagem. Gente que quer ensinar pobre a ser pobre, entra pra lista? Não, é só gente vazia e estúpida, não vale uma munição.

Pego um ônibus, depois um trem. Observo todo mundo com os meus óculos escuros e o meu bigode que nunca tiro. Ninguém percebe que fito todo mundo, possuo essa arte. No trem, sentado, observo um desgraçado de pau duro se esfregando numa moça. Não é um pirado da cabeça, conheço aquele olhar. Se eu agisse guiado pela ira aquele infeliz iria empacotar ali mesmo, de pau duro. Apenas baixei meus óculos escuros e encarei o desgraçado. Ele olhou nos meus olhos e depois se virou para o outro lado. Desceu na estação seguinte, de pau mole. Segue o rumo. Fora isso, tudo certo, nada à vista. Mas nunca se sabe.

Muita gente acha que minha missão é fácil, é só chegar e atirar, pow, pow. Nem perto disso. É muita dedicação, cálculo, observação, tal como um cientista, para quando acontecer o ato ele ser certeiro, definitivo, sem riscos. Venho estudando este aqui faz um tempo. O sujeito, um ruivinho, era dono de uma boca de fumo, especializada em crack. Nada contra ele vender crack, ou qualquer uma dessas merdas, é negócio, parte invisível do PIB, o que eu acho inadmissível é o prazer que ele possui em ver o povo noiado, alucinado, fazendo bizarrices. Gostava de ficar lá sentado, feito o rei da sarjeta, em sua poltrona velha e esculhambada, assistindo aos viciados brigar, roubar, se matar, jogar merda um no outro, pra conseguir dez conto pra pagar por uma pedra. Sua boca de fumo ao ar livre era bem próxima da linha do trem, descobri esse filho da puta justamente em um dia que o trem que eu estava freou de supetão. Tinha passado por cima de um perdido daqueles. Coloquei a cabeça para fora da janela do trem, e mesmo de longe pude ver o ruivinho lá sentado naquela poltrona carcomida se esbaldando de rir, como um soberano se divertindo com o seu bobo da corte esquelético e demente. Aquilo me chamou a atenção, anotei no caderninho. Depois dos meus estudos constarei que seu esporte preferido era ver o povo ficar doidão e se jogar na frente do trem, feito um zumbi, rolavam até apostas, e ele ria até ficar todo vermelho, igual ao seu cabelo e sua barbicha. Nem se importava em perder a clientela. “Morre um vem cinco”, dizia ele. Imperdoável.

Não, não fui atrás dele na boca, não frequento esses lugares, muito menos à noite, arriscado e óbvio demais. Observei tudo de longe e paguei a uns moleques por informações. O que muita gente não sabe é que nem todo traficante, ou dono de boca, mora no morro, ou em favela, ou vivem cercados de gente armada até os dentes. Muitos moram no meio da gente, apartamentos, condomínios comuns, classe média. De dia tem uma vida normal, toma café da manhã com a família, leva os filhos ao colégio, tem seguro de vida, vai à reunião de condomínio, dá pipoca aos macacos com os filhos, e não leva trabalho pra casa. Mas à noite bate ponto numa boca. Recebe a mercadoria na rua e vende tudo no mesmo dia. Se sobra, o que é raro, esconde num lugar bem seguro. No “trabalho” ele andava armado, claro, mas era safo, não levava nem arma nem bagulho pra casa. Sua mulher nunca desconfiou de nada? Vai lá se saber, quando tudo funciona ninguém costuma fazer perguntas. O chefe da família era vegano, moralista e não bebia se quer uma cervejinha em casa, realmente acho que sua esposa e sua filhinha nunca sonharam com a sua “profissão”.

Mas aquele puto tinha uma particularidade, foi seu ponto franco, um ou dois dias na semana gostava de ir à praia, sozinho, bem afastada da sua casa. As vezes pegava onda, tinha uma prancha que deixava numa barraca, que pagava por mês ao dono do lugar para ter algumas regalias por alí. Que adianta juntar dinheiro e não aproveitar a vida? Vez por outra convencia umas menores a fazerem uns servicinhos pra ele em troca de uma merrequinha. Nunca ofereceu drogas para elas, não misturava as coisas, era esperto. Mas um homem é pego pelos seus hábitos.

Naquele dia dei uma de turista argentino, com umas roupas ridículas de praia, meus óculos escuros e meu bigode, sempre aqui comigo. Fiquei sentado ao lado da barraca que ele guardava a prancha e costumava pegar as meninas. Ele quase sempre conversava com elas ainda na água e partia sozinho, esperava na barraca primeiro, depois elas iam atrás, pra evitar câmeras, essas coisas, muito esperto. Eu, sentado numa espreguiçadeira, fingia ler uma revista espanhola. Ele entrou na barraca com a prancha debaixo do braço, como se fosse o dono do lugar. Neste intervalo entrei atrás dele com uma enorme toalha nos ombros. Ele estava de costas para mim ajeitando a prancha quando se virou dizendo: “já está aqui, princesa...” Quando me viu com a minha Glock.40 com silenciador na mão. Ele arregalou os olhos e quase caiu pra trás de susto, não houve tempo. Três tiros, dois na cabeça e um no coração. Caiu de bruços no chão sujo de areia de praia. Morreu com seus cabelos de fogo e com os olhos bem esbugalhados, esta sim é minha droga. Pavor nos olhos é sinal de respeito. O homem está redimido, que morra o pecado.

Na cabeça cinematográfica de muita gente é comum achar que antes de atirar a gente fala alguma gracinha. É coisa de filme mesmo, não dá tempo. Mas depois de atirar sim, sempre penso em alguma coisa que dá vontade de falar: “trouxe essa princesa pra você, seu rei dos cracudos”. Mas não falei, nunca falo. Princípios. Outra coisa é acharem que certamente o fim perfeito para esse sujeito seria jogá-lo também na frente do trem, esmagar sua cabeça nas rodas pesadas do comboio. De fato, seria. Mas sou matador, não justiceiro, não vacilo. Com a minha Glock.40 a coisa é certa, ninguém escapa.

Voltei para a minha espreguiçadeira e para o meu coco, fiquei esperando il prossimo atto dell’opera. Em menos de cinco minutos uma garota entrou na barraca e imediatamente saiu gritando: “socorro, socorro, alguém me ajude...”. Ela não fazia ideia ainda que aquela poça de sangue era de buracos de balas, achou que ele tinha caio no chão, tomado uma pancada. A barraca logo se encheu de gente, todo mundo espantado e muita falação. Chega um salva vidas, depois dois policiais. Mais um tempo chega a reportagem, é só esperar.

Deixei dez conto debaixo do coco e disse baixinho olhando aquele alvoroço: “muchas gracias”. Não tinha câmeras de vigilância por perto, me certifiquei disso. Sai caminhando bem devagar, aproveitando a brisa do mar, que quase fez o meu chapéu ridículo de turista voar da cabeça. Olhei para trás e a barraca parecia um formigueiro de gente. Acho incrível que neste país as pessoas ainda se impressionem com esse tipo de coisa, mas se tem coisa que gente viva adora é ver gente morta, muitas estão vendo pela primeira vez aquilo que só viram pela televisão, e nem sempre de verdade. Não me orgulho em satisfazer as suas curiosidades, meu propósito nunca foi esse, mas, fazer o que? Faz parte do show. Subo a calçada, vou ao banheiro de uma restaurante quase vazio e me visto adequadamente. Sento, peço outro coco. Uma televisão enorme ligada e na maior altura, os garçons assistiam, deve ser por isso que este lugar está às moscas. Passa o telejornal, mais uma vez aquele povo de amarelo fazendo passeata. Neste país é gente bem de vida que faz revolução e gente fudida é que está calada. Deviam aprender com os ricos.

Pego meu caderninho, risco mais um, anoto outro. Gente que abusa de mulheres nos transportes públicos. Outro trem, outro ônibus... e todos os dias a lista cresce.


 
 
 

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